DE BESTIALIZADOS A CIDADÃOS
Maria Lucia Victor Barbosa
O chamamento pela Internet que culminou no movimento popular do sete de setembro, especialmente em Brasília, levou milhares de pessoas a protestar durante o desfile oficial. Foi um evento que não pode ser analisado superficialmente, mesmo porque, para entender o presente é preciso recuar até ao passado. Num pequeno artigo seria impossível historiar o que se passou no Brasil desde sua descoberta, como fiz em um dos meus livros, “América Latina – em busca do paraíso perdido”, mas, pelo menos, podemos recortar no tempo alguns acontecimentos históricos e políticos importantes:
A vinda da corte portuguesa, em 1808, e o modo como se realizou a independência em sete de setembro de 1822, trouxeram várias consequências. Em primeiro lugar a presença da família real fortaleceu a unidade política do colosso territorial, ao contrário do Império Espanhol que se fragmentou em várias nações entre 1810 e 1838. Segundo, apesar de alguns movimentos importantes, mas isolados, a independência foi obra do príncipe regente e de minorias políticas enquistadas nos bastidores do poder. Não houve, pois, o sentimento nacionalista que marcou os episódios libertadores das colônias espanholas, sentimento que no nosso caso foi substituído por meros interesses individualistas que nada tinham a ver com percepção de pátria ou ideal de bem comum.
Foram também a partir de 1808, que se instalaram no Brasil de uma vez por todas as características do velho Estado português, que em terra nova não perderia sua essência patrimonialista magistralmente explicada por Raymundo Faoro em sua obra, “Os donos do poder”: “Os reis portugueses governaram o reino como a própria casa, não distinguindo o tesouro pessoal do patrimônio público”.
Era um Estado também corrupto na medida em que para tudo se dependia dele, do seu excessivo quadro de funcionários, da morosidade típica da burocracia, correndo soltas as propinas para aligeirar licenças, fornecimentos, processos, despachos, etc. Nas entranhas do desajeitado e ineficiente Leviatã conduzido por D. João VI traficavam-se influências, negociava-se a coisa pública em proveito próprio. Imagino que os leitores devem estar notando que a realidade de hoje não difere muito do nosso já distante passado.
Acrescente-se que os fatos mais marcantes da nossa história não contaram com a participação popular. Por isso, a proclamação da Republica não sensibilizou a massa, nem sequer no Rio de Janeiro, quanto mais nas vastidões afora do país. José Murilo de Carvalho cita em seu livro, “Os bestializados”, Aristides Lobo, adepto incondicional da nova forma de governo e um dos mais desapontados. Segundo este, “o povo, que pelo ideário republicano deveria ter sido o protagonista dos acontecimentos, assistiu a tudo bestializado, sem compreender o que se passava, julgando ver talvez uma parada militar”.
Muita coisa foi mudando como não poderia deixar de ser. Vários movimentos aconteceram. Alguns, como as diretas já e o impeachment do ex-presidente Fernando Collor levaram o povo às ruas. Mas sempre houve lideranças partidárias, sindicais, apoios da Igreja e de estudantes que conduziram multidões. Em showmícios a massa aplaudia entusiasticamente tanto oradores políticos quanto artistas preferidos do grande público.
Na era Lula/PT em que a decadência partidária avança, os valores se extinguem, a corrupção sempre havida é exacerbada de modo impressionante juntamente com a impunidade dos “colarinhos brancos” e a propaganda transforma cidadãos em bestializados, aconteceram fatos que o domínio petista não deve ter digerido bem.
Um deles foi o sonoro não ao desarmamento da população, em plebiscito levado a cabo por ordem de Lula da Silva. Posteriormente, um movimento via internet ajudou a pressionar parlamentares para que a famigerada CPMF, que está prestes a ser ressuscitada pela presidente Rousseff, fosse extinta. Outros abaixo assinados como aquele a favor da “ficha limpa” ou centenas de artigos e de opiniões críticas ao governo que se entrecruzam em e-mails mostram que, ao contrário dos muitos satisfeitos, por enquanto, com sua situação financeira, uma minoria consciente das classes médias que lê jornais e revistas começa a perceber que a avassaladora corrupção que se espraia por todos os cantos do poder é danosa aos interesses da nação.
Surgiram, porém, criticas entre os próprios internautas. Muitos dizem que não basta escrever, seria preciso agir, ganhar as ruas, expressar publicamente a indignação.
A Internet ficou pulsando até aglutinar um movimento espontâneo que fez do virtual o real, materializando no sete de setembro em vários Estados e, principalmente, em Brasília, milhares de pessoas, sobretudo, jovens, que tiveram como foco o combate à corrupção. Pela primeira vez um movimento não teve líderes, foi consciente, apartidário, não expressava ideologia tanto de esquerda quanto de direita, não era individualizado, mas em defesa de um objetivo comum.
Digam os críticos desse inédito acontecimento que ele é efêmero e difuso, queiram alguns espertamente se apropriar dele, mas o fato é que brasileiros foram ao desfile de sete de setembro e assistiram a parada militar não como bestializados, mas como cidadãos. Tomara que esses compatriotas sejam o fermento de uma progressiva transformação rumo à consciência cívica que tanto nos falta.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
www.maluvibar.com.br
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
O SUBMUNDO DO GOVERNO
Maria Lucia Victor Barbosa
01/09/2011
Em 1914, Robert de Jouvenel dá o título de “O quarto poder” a uma das partes de sua obra, La République des camarades. Ali ele registrou:
“Quando um parlamentar conhecido se abstém durante muito tempo de frequentar essa bolsa de confidências e difamações, sua pessoa poderá ser vista a perambular tristemente de grupo em grupo, à cata do jornalista que se disponha finalmente a vir solicitar confidências destinadas ao grande público”.
Jouvenel mostrou, assim, a força do “quarto poder”, ou seja, dos jornais do seu tempo. Ele não podia imaginar a influência que teriam mais tarde o rádio e a televisão sobre a massa.
O quarto poder continua a movimentar opiniões, mas, no momento, em nosso país, é de se duvidar que algum político busque jornalistas de certos veículos da grande imprensa, os raros que possuem independência suficiente para mostrar o submundo do governo. Destes jornais e revistas os políticos devem estar fugindo como diabo da cruz. É que o quarto poder anda derrubando ministros, mostrando com fatos e documentos no que se transformou o governo do PT e de seus aliados.
Logo a propaganda se apropriou das denúncias do quarto poder e atribuiu à presidente da República uma hipotética faxina, na verdade apenas desencadeada no Ministério dos Transportes, inclusive, com a queda do ministro Alfredo Nascimento. Antonio Palocci da Casa Civil, Nelson Jobim da Defesa, Wagner Rossi da Agricultura caíram de podres e para não macular a imagem da presidente, exatamente como acontecia no governo do blindado Lula da Silva.
Tornaram-se intocáveis os titulares que pertencem ao PT ou ao PMDB, como aqueles dos ministérios do Turismo, das Cidades, das Comunicações, da Casa Civil, das Relações Institucionais e quantos mais estejam na mira do quarto poder, como o dos Esportes. A presidente declarou que só mexe nessas pastas, em que pesem as denúncias sobre as mesmas, se os partidos pedirem, algo risível. Partidos não pedem para sair de cargos, mas para entrar em quantos cargos puderem.
Para contrapor à imprensa nacional logo foram espalhados na imprensa internacional elogios mil a presidente da República. Ela surge como corajosa, ética, guerreira contra a corrupção. E a revista Forbes a coloca como terceira mulher mais poderosa do mundo.
Nem uma palavra sobre o intocado submundo da corrupção reinante na república dos companheiros. Nada sobre o fato de que a terceira mulher mais poderosa do mundo reina, mas não governa, pois o comando continua sendo de Lula da Silva que indica ministros, reúne-se com os partidos políticos, faz inaugurações, visita países latino-americanos como se presidente ainda fosse, ensina à sua desajeitada criação política como agir de forma demagógica.
Na última edição da revista Veja, uma matéria sobre José Dirceu mostrou o quanto ele comanda autoridades recebendo seus pleitos, interage com aqueles aos quais denominou de “elites”, mas demoniza os “malditos e impiedosos ricos” que o sustentam como a um nababo e realizam com ele negócios extraordinários. Porém, a revista não contou a quem Dirceu obedece. Certamente a Lula da Silva, pois é de se duvidar que este conceda uma migalha sequer de seu poder a outrem.
A propalada faxina serviu, contudo, para despertar certo temor nos petistas. Recearam os companheiros que o governo de Lula da Silva fosse carimbado como corrupto. Algo extremamente óbvio, pois os ministros que caíram eram os mesmos do ex-presidente e por ele impostos a sua afilhada política. Será que os petistas temem que Lula da Silva apareça como fiador ou cúmplice das falcatruas? Que ele tenha oficializado a velha prática da corrupção que se tornou incomensurável?
Note-se que a própria Rousseff conviveu com o submundo do “reino” lulista e fez parte dele junto com sua fiel servidora, Erenice Guerra, alcunhada de Erê 6%. Converte-se, assim, a presidente na imagem viva da herança maldita de Lula da Silva, que em vez de legar afanou bilhões que poderiam ter sido aplicados em benefício do povo, e que foram parar no bolso dos larápios da república dos companheiros. Inclua-se aqui o Poder Legislativo, cujo último ato foi o de livrar Jaqueline Roriz do impeachment, aliás, prática corrente de autoproteção dos parlamentares.
Da pretensa faxina presidencial emerge também algo óbvio, que tenho repetido em outros artigos. Tudo isto acontece porque não existe oposição, exceto uma ou outra voz isolada. Foi, por exemplo, deprimente ver a foto de Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e outros próceres tucanos, praticamente aos pés da “terceira mulher mais poderosa do mundo”.
Sem oposição fraqueja a democracia e emerge a ditadura disfarçada do PT. Na impunidade onde a lei é substituída pela ideologia ou pelo interesse pessoal de quem julga viceja o submundo do governo. De tudo se conclui que somos atrasados demais para sermos civilizados, pois permitimos nossa desgraça, alheios aos que nos comandam.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
www.maluvibar.blogspot.com
Maria Lucia Victor Barbosa
01/09/2011
Em 1914, Robert de Jouvenel dá o título de “O quarto poder” a uma das partes de sua obra, La République des camarades. Ali ele registrou:
“Quando um parlamentar conhecido se abstém durante muito tempo de frequentar essa bolsa de confidências e difamações, sua pessoa poderá ser vista a perambular tristemente de grupo em grupo, à cata do jornalista que se disponha finalmente a vir solicitar confidências destinadas ao grande público”.
Jouvenel mostrou, assim, a força do “quarto poder”, ou seja, dos jornais do seu tempo. Ele não podia imaginar a influência que teriam mais tarde o rádio e a televisão sobre a massa.
O quarto poder continua a movimentar opiniões, mas, no momento, em nosso país, é de se duvidar que algum político busque jornalistas de certos veículos da grande imprensa, os raros que possuem independência suficiente para mostrar o submundo do governo. Destes jornais e revistas os políticos devem estar fugindo como diabo da cruz. É que o quarto poder anda derrubando ministros, mostrando com fatos e documentos no que se transformou o governo do PT e de seus aliados.
Logo a propaganda se apropriou das denúncias do quarto poder e atribuiu à presidente da República uma hipotética faxina, na verdade apenas desencadeada no Ministério dos Transportes, inclusive, com a queda do ministro Alfredo Nascimento. Antonio Palocci da Casa Civil, Nelson Jobim da Defesa, Wagner Rossi da Agricultura caíram de podres e para não macular a imagem da presidente, exatamente como acontecia no governo do blindado Lula da Silva.
Tornaram-se intocáveis os titulares que pertencem ao PT ou ao PMDB, como aqueles dos ministérios do Turismo, das Cidades, das Comunicações, da Casa Civil, das Relações Institucionais e quantos mais estejam na mira do quarto poder, como o dos Esportes. A presidente declarou que só mexe nessas pastas, em que pesem as denúncias sobre as mesmas, se os partidos pedirem, algo risível. Partidos não pedem para sair de cargos, mas para entrar em quantos cargos puderem.
Para contrapor à imprensa nacional logo foram espalhados na imprensa internacional elogios mil a presidente da República. Ela surge como corajosa, ética, guerreira contra a corrupção. E a revista Forbes a coloca como terceira mulher mais poderosa do mundo.
Nem uma palavra sobre o intocado submundo da corrupção reinante na república dos companheiros. Nada sobre o fato de que a terceira mulher mais poderosa do mundo reina, mas não governa, pois o comando continua sendo de Lula da Silva que indica ministros, reúne-se com os partidos políticos, faz inaugurações, visita países latino-americanos como se presidente ainda fosse, ensina à sua desajeitada criação política como agir de forma demagógica.
Na última edição da revista Veja, uma matéria sobre José Dirceu mostrou o quanto ele comanda autoridades recebendo seus pleitos, interage com aqueles aos quais denominou de “elites”, mas demoniza os “malditos e impiedosos ricos” que o sustentam como a um nababo e realizam com ele negócios extraordinários. Porém, a revista não contou a quem Dirceu obedece. Certamente a Lula da Silva, pois é de se duvidar que este conceda uma migalha sequer de seu poder a outrem.
A propalada faxina serviu, contudo, para despertar certo temor nos petistas. Recearam os companheiros que o governo de Lula da Silva fosse carimbado como corrupto. Algo extremamente óbvio, pois os ministros que caíram eram os mesmos do ex-presidente e por ele impostos a sua afilhada política. Será que os petistas temem que Lula da Silva apareça como fiador ou cúmplice das falcatruas? Que ele tenha oficializado a velha prática da corrupção que se tornou incomensurável?
Note-se que a própria Rousseff conviveu com o submundo do “reino” lulista e fez parte dele junto com sua fiel servidora, Erenice Guerra, alcunhada de Erê 6%. Converte-se, assim, a presidente na imagem viva da herança maldita de Lula da Silva, que em vez de legar afanou bilhões que poderiam ter sido aplicados em benefício do povo, e que foram parar no bolso dos larápios da república dos companheiros. Inclua-se aqui o Poder Legislativo, cujo último ato foi o de livrar Jaqueline Roriz do impeachment, aliás, prática corrente de autoproteção dos parlamentares.
Da pretensa faxina presidencial emerge também algo óbvio, que tenho repetido em outros artigos. Tudo isto acontece porque não existe oposição, exceto uma ou outra voz isolada. Foi, por exemplo, deprimente ver a foto de Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e outros próceres tucanos, praticamente aos pés da “terceira mulher mais poderosa do mundo”.
Sem oposição fraqueja a democracia e emerge a ditadura disfarçada do PT. Na impunidade onde a lei é substituída pela ideologia ou pelo interesse pessoal de quem julga viceja o submundo do governo. De tudo se conclui que somos atrasados demais para sermos civilizados, pois permitimos nossa desgraça, alheios aos que nos comandam.
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segunda-feira, 8 de agosto de 2011
A PIOR ESCOLHA DE LULA
Maria Lucia Victor Barbosa
Dizem que Nelson Jobim saiu do Ministério da Defesa porque quis. Estava insatisfeito e manifestou esse sentimento com provocações ao governo petista no intuito de ser demitido. Não interessa nesse artigo analisar tal homem público. Muitos o elogiaram como se ele tivesse morrido, afinal, todo morto vira santo. Não vem, contudo, ao caso tratar aqui do civil que gostava de se fantasiar de militar. Antes interessa observar mais uma escolha de Lula, talvez, a pior de todas. Afinal, ocorre a alguém que não foi ele que, em prazeroso exercício de seu terceiro mandato ordenou a sua afilhada política que desse um posto importante ao homem que sob suas ordens e via Marco Aurélio Garcia foi exemplarmente servil?
Na verdade, perante o mundo civilizado o Brasil passou vergonha por conta dos constantes fiascos e trapalhadas do chanceler, de seus achegos aos piores ditadores mundiais, de suas erráticas escolhas ideológicas que privilegiaram o perigoso Ahmadinejad, o sanguinário déspota Fidel Castro, o bufão Hugo Chávez e demais caudilhos latino-americanos, enfim, todos os que são rotulados como sendo de esquerda.
Por outro lado, as pantomimas “diplomáticas” de Amorim de certo modo disfarçaram o modo de ser PT no poder perante esquerdistas românticos ou para aqueles que acreditam que Lula é a “luz do mundo”. Isto porque, o outrora partido ético, único verdadeiramente de esquerda, aquele que vinha para mudar o que estava errado mergulhou de cabeça no vale-tudo da imoralidade pública, no peculiar tipo de capitalismo selvagem, onde poderosos roubam bilhões e fica por isso mesmo.
Lula determinou que permanecessem no governo Rousseff ministros de setores estratégicos, ligados ao seu partido e que o serviram em seus mandatos. E outros da chamada base aliada ou comprada, como Alfredo Nascimento do Ministério dos Transportes. Sem dúvida, uma tática de atrelamento para dar continuidade ao seu poder, a mesma que ele impõe ao PT quando quer indicar candidatos a prefeito.
Palocci, o primeiro do atual governo a cair deve estar sem medo de ser feliz e ganhando fábulas. Nascimento e vários diretores do Ministério dos Transportes que através do que foi mostrado na imprensa lembrou um antro de ladrões, foram para o olho da rua. Agora se foi Jobim, que pelo menos não apareceu como corrupto.
Cabe indagar se Lula não sabia, não via, não escutava nada do que se passava entre os companheiros ministros, se seria omisso ou conivente com a corrupção reinante. E Dilma Rousseff, que tendo sido, inclusive, ministra da Casa Civil, o ministério mais importante que comanda todos os demais, também não sabia de nada? Se sabia, porque não avisou ao chefe?
Porque só agora Rousseff reagiu para ser aplaudida como a grande defensora da ética? Será por que no Ministério dos Transportes, o PAC, seu “filho” único foi abortado entre fraudes, tramoias e falcatruas? Seria o ataque moralista da presidente foi apenas um golpe de marketing? Terá ela coragem de fazer a mesma limpeza em outros ministérios, especialmente os do PMDB? De todo modo, foi significativo o aviso de Gilberto de Carvalho, porta-voz de Lula, de que não haverá mais caça as bruxas.
Na caçada feita percebe-se que foi trocado seis por meia dúzia, o que mostra claramente a falta de quadros do PT e de suas bases. Chegou-se na era Lula ao fundo do poço da amoralidade, da mediocridade, da vulgaridade, da ausência de valores, da impunidade, do achincalhe, da malandragem, do cinismo e da mentira praticados de modo nunca antes havido nesse país. Com raras exceções presencia-se a degradação total do meio político, onde a corrupção é o feijão com arroz do cotidiano.
Celso Amorim, ajudante de Marco Aurélio Garcia, fiel agregado das hostes lulistas, é figura emblemática da degradação onde se destaca como sabujo sempre solicito e pronto a obedecer ao chefe. Não tem vontade própria, não possui espinha dorsal e seu forte são trapalhadas cometidas no afã de agradar aos superiores. A este tipo de indivíduo foi entregue o Ministério da Defesa, o que dá a sensação de que o país está indefeso. Como curiosidade se pode conjecturar o que fará ele em primeiro lugar: a compra dos caças franceses? A criação de um Exército latino-americano para servir a Hugo Chávez? A oficialização do trânsito das Farc dentro de nossas fronteiras? Ah, muito pode fazer Amorim em nome da causa. E como afirmou Lula da Silva: “não cabe aos militares gostarem ou não gostarem”. Ao povo não precisa dizer que deve votar nele em 2014. O povo fará isso com entusiasmo.
Há tempos atrás tais coisas seriam tidas como impossíveis. Tudo mudou. Para pior. Muito pior. Eis a verdadeira herança maldita, onde Celso Amorim é um dos destaques.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
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Maria Lucia Victor Barbosa
Dizem que Nelson Jobim saiu do Ministério da Defesa porque quis. Estava insatisfeito e manifestou esse sentimento com provocações ao governo petista no intuito de ser demitido. Não interessa nesse artigo analisar tal homem público. Muitos o elogiaram como se ele tivesse morrido, afinal, todo morto vira santo. Não vem, contudo, ao caso tratar aqui do civil que gostava de se fantasiar de militar. Antes interessa observar mais uma escolha de Lula, talvez, a pior de todas. Afinal, ocorre a alguém que não foi ele que, em prazeroso exercício de seu terceiro mandato ordenou a sua afilhada política que desse um posto importante ao homem que sob suas ordens e via Marco Aurélio Garcia foi exemplarmente servil?
Na verdade, perante o mundo civilizado o Brasil passou vergonha por conta dos constantes fiascos e trapalhadas do chanceler, de seus achegos aos piores ditadores mundiais, de suas erráticas escolhas ideológicas que privilegiaram o perigoso Ahmadinejad, o sanguinário déspota Fidel Castro, o bufão Hugo Chávez e demais caudilhos latino-americanos, enfim, todos os que são rotulados como sendo de esquerda.
Por outro lado, as pantomimas “diplomáticas” de Amorim de certo modo disfarçaram o modo de ser PT no poder perante esquerdistas românticos ou para aqueles que acreditam que Lula é a “luz do mundo”. Isto porque, o outrora partido ético, único verdadeiramente de esquerda, aquele que vinha para mudar o que estava errado mergulhou de cabeça no vale-tudo da imoralidade pública, no peculiar tipo de capitalismo selvagem, onde poderosos roubam bilhões e fica por isso mesmo.
Lula determinou que permanecessem no governo Rousseff ministros de setores estratégicos, ligados ao seu partido e que o serviram em seus mandatos. E outros da chamada base aliada ou comprada, como Alfredo Nascimento do Ministério dos Transportes. Sem dúvida, uma tática de atrelamento para dar continuidade ao seu poder, a mesma que ele impõe ao PT quando quer indicar candidatos a prefeito.
Palocci, o primeiro do atual governo a cair deve estar sem medo de ser feliz e ganhando fábulas. Nascimento e vários diretores do Ministério dos Transportes que através do que foi mostrado na imprensa lembrou um antro de ladrões, foram para o olho da rua. Agora se foi Jobim, que pelo menos não apareceu como corrupto.
Cabe indagar se Lula não sabia, não via, não escutava nada do que se passava entre os companheiros ministros, se seria omisso ou conivente com a corrupção reinante. E Dilma Rousseff, que tendo sido, inclusive, ministra da Casa Civil, o ministério mais importante que comanda todos os demais, também não sabia de nada? Se sabia, porque não avisou ao chefe?
Porque só agora Rousseff reagiu para ser aplaudida como a grande defensora da ética? Será por que no Ministério dos Transportes, o PAC, seu “filho” único foi abortado entre fraudes, tramoias e falcatruas? Seria o ataque moralista da presidente foi apenas um golpe de marketing? Terá ela coragem de fazer a mesma limpeza em outros ministérios, especialmente os do PMDB? De todo modo, foi significativo o aviso de Gilberto de Carvalho, porta-voz de Lula, de que não haverá mais caça as bruxas.
Na caçada feita percebe-se que foi trocado seis por meia dúzia, o que mostra claramente a falta de quadros do PT e de suas bases. Chegou-se na era Lula ao fundo do poço da amoralidade, da mediocridade, da vulgaridade, da ausência de valores, da impunidade, do achincalhe, da malandragem, do cinismo e da mentira praticados de modo nunca antes havido nesse país. Com raras exceções presencia-se a degradação total do meio político, onde a corrupção é o feijão com arroz do cotidiano.
Celso Amorim, ajudante de Marco Aurélio Garcia, fiel agregado das hostes lulistas, é figura emblemática da degradação onde se destaca como sabujo sempre solicito e pronto a obedecer ao chefe. Não tem vontade própria, não possui espinha dorsal e seu forte são trapalhadas cometidas no afã de agradar aos superiores. A este tipo de indivíduo foi entregue o Ministério da Defesa, o que dá a sensação de que o país está indefeso. Como curiosidade se pode conjecturar o que fará ele em primeiro lugar: a compra dos caças franceses? A criação de um Exército latino-americano para servir a Hugo Chávez? A oficialização do trânsito das Farc dentro de nossas fronteiras? Ah, muito pode fazer Amorim em nome da causa. E como afirmou Lula da Silva: “não cabe aos militares gostarem ou não gostarem”. Ao povo não precisa dizer que deve votar nele em 2014. O povo fará isso com entusiasmo.
Há tempos atrás tais coisas seriam tidas como impossíveis. Tudo mudou. Para pior. Muito pior. Eis a verdadeira herança maldita, onde Celso Amorim é um dos destaques.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
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segunda-feira, 4 de julho de 2011
“PRINCÍPIO GULAG”
Maria Lucia Victor Barbosa
02/07/2011
O Brasil está vivendo uma verdadeira septicemia corruptiva, uma infecção moral generalizada, cujo maior fomentador tem sido o ex-presidente Lula da Silva.
Ao patrocinar a corrupção política dizendo sempre que nada sabe, nada viu; ao institucionalizar a prática de comprar parlamentares que foi apelidada de “mensalão”; ao abençoar companheiros aloprados; ao pregar que “se todo mundo faz nós podemos fazer também”; ao proteger o assassino Cesare Battisti rompendo tratado internacional ou acolher bandidos das Farc, ele sinalizou que tudo pode ser praticado impunemente. Acrescente-se que no momento a impunidade foi reforçada pela última invenção jurídica, segundo a qual ninguém vai preso e quem está preso vai ser solto.
Lula da Silva, é claro, não inventou a corrupção brasileira, mas a elevou a um grau assustadoramente alto. Hoje, só não rouba quem é honesto por princípio, por berço, por caráter. Porque as oportunidades estão escancaradas para quem quiser e, detalhe, sem riscos.
O ex-presidente, que aparece ostensivamente quando sua afilhada política fraqueja e vacila, o que tem sido uma constante, indicou os principais ministros do atual mandato, companheiros que já o haviam servido. Entre eles, o reincidente Antonio Palocci, querido do mercado, mas famoso, entre outros casos, pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, o que no governo Lula ensejou sua queda. Como pessoas dificilmente mudam, Palocci despencou novamente envolvido numa cadeia de ilegalidades que foram fartamente noticiadas e documentadas pela imprensa. Como aconteceu com Lula da Silva, para que Rousseff não fosse atingida, Palocci bateu em retirada. Isto se deu de forma triunfal, em auditório estrategicamente lotado com sabujos palacianos que aplaudiram Palocci delirantemente.
Escândalos, que durante os dois mandatos de Lula da Silva explodiram em escala nunca vista continuam atingindo altas autoridades, que seguem impávidas no país onde tudo é permitido. Se a pessoa é “amiga do rei” pode ficar sossegada.
Esse, por exemplo, é o caso do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que se veio à televisão execrar os bombeiros aos quais paga salário de R$ 950,00, chamando-os de vândalos e delinquentes, não apareceu para explicar suas nebulosas ligações com a iniciativa particular. As “zelite”, como diz Lula da Silva, o que significa na língua “petê” os “malditos capitalistas” que sustentam campanhas milionárias, inclusive, as presidenciais, tendo depois sua “justa” paga em bilhões através de favorecimentos públicos.
Junte-se ao espetáculo da avassaladora corrupção, o do cinismo extremo. Recentemente isso pode ser ilustrado pela performance do ministro Aloísio Mercadante que, acuado pelo fogo amigo negou ter chefiado o “Dossiê dos Aloprados”, sórdida montagem de dados falsos que visava derrubar a candidatura do tucano José Serra ao governo de São Paulo. Aliás, desse tipo de dossiê o PT entende.
No país onde existe licença para roubar e para matar; que direitos humanos são apenas para bandidos; que é claro o objetivo de manter as novas gerações na ignorância ensinando que o certo é o errado, que 10 – 7 = 4; que a sociedade se encontra moralmente corrompida não sabendo mais distinguir entre o certo e o errado; outro enorme malefício, pouco notado, é inoculado pelos “intelectuais orgânicos” petistas. Vou chamá-lo de “princípio gulag”.
Este termo pertence a Vladmir Bukovsky, autor do “Tratado de Lisboa”, dirigido aos portugueses e aos demais europeus. Afirma o autor: “Na URSS tínhamos o gulag”. “Creio que ele existe também na UE, mas um gulag intelectual, designado por politicamente correto”.
De forma impressionante essa característica se adequa com perfeição também ao Brasil, pois conclui Bukovsky:
“Experimentem dizer o que pensam sobre questões como raça e sexualidade”. “Se suas opiniões não forem ‘boas’, ou seja, não forem politicamente corretas, vocês serão marginalizados”. “E isto é o começo do que podemos chamar de princípio gulag, ou seja, o começo da perda da liberdade”.
Lula da Silva diz que não é de esquerda e o PT, para conquistar o poder máximo da República, acalmou o sensível mercado. Curiosamente, porém, o PT age com métodos totalitários, pois a propaganda anestesiou a sociedade que se quedou extasiada diante da retórica inflamada de um pequeno Hitler terceiro-mundista. Ao mesmo tempo, palavras pervertidas apareceram com uma visão deslocada que deforma a perspectiva de conjunto. O PT criou uma “novilíngua” adaptada ao politicamente correto. Assim, somos confrontados a um astigmatismo social e político. Enxergar de outro modo seria preconceito o que acarreta autocensura. A continuar assim o PT não sai do poder nem daqui a vinte anos.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
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Maria Lucia Victor Barbosa
02/07/2011
O Brasil está vivendo uma verdadeira septicemia corruptiva, uma infecção moral generalizada, cujo maior fomentador tem sido o ex-presidente Lula da Silva.
Ao patrocinar a corrupção política dizendo sempre que nada sabe, nada viu; ao institucionalizar a prática de comprar parlamentares que foi apelidada de “mensalão”; ao abençoar companheiros aloprados; ao pregar que “se todo mundo faz nós podemos fazer também”; ao proteger o assassino Cesare Battisti rompendo tratado internacional ou acolher bandidos das Farc, ele sinalizou que tudo pode ser praticado impunemente. Acrescente-se que no momento a impunidade foi reforçada pela última invenção jurídica, segundo a qual ninguém vai preso e quem está preso vai ser solto.
Lula da Silva, é claro, não inventou a corrupção brasileira, mas a elevou a um grau assustadoramente alto. Hoje, só não rouba quem é honesto por princípio, por berço, por caráter. Porque as oportunidades estão escancaradas para quem quiser e, detalhe, sem riscos.
O ex-presidente, que aparece ostensivamente quando sua afilhada política fraqueja e vacila, o que tem sido uma constante, indicou os principais ministros do atual mandato, companheiros que já o haviam servido. Entre eles, o reincidente Antonio Palocci, querido do mercado, mas famoso, entre outros casos, pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, o que no governo Lula ensejou sua queda. Como pessoas dificilmente mudam, Palocci despencou novamente envolvido numa cadeia de ilegalidades que foram fartamente noticiadas e documentadas pela imprensa. Como aconteceu com Lula da Silva, para que Rousseff não fosse atingida, Palocci bateu em retirada. Isto se deu de forma triunfal, em auditório estrategicamente lotado com sabujos palacianos que aplaudiram Palocci delirantemente.
Escândalos, que durante os dois mandatos de Lula da Silva explodiram em escala nunca vista continuam atingindo altas autoridades, que seguem impávidas no país onde tudo é permitido. Se a pessoa é “amiga do rei” pode ficar sossegada.
Esse, por exemplo, é o caso do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que se veio à televisão execrar os bombeiros aos quais paga salário de R$ 950,00, chamando-os de vândalos e delinquentes, não apareceu para explicar suas nebulosas ligações com a iniciativa particular. As “zelite”, como diz Lula da Silva, o que significa na língua “petê” os “malditos capitalistas” que sustentam campanhas milionárias, inclusive, as presidenciais, tendo depois sua “justa” paga em bilhões através de favorecimentos públicos.
Junte-se ao espetáculo da avassaladora corrupção, o do cinismo extremo. Recentemente isso pode ser ilustrado pela performance do ministro Aloísio Mercadante que, acuado pelo fogo amigo negou ter chefiado o “Dossiê dos Aloprados”, sórdida montagem de dados falsos que visava derrubar a candidatura do tucano José Serra ao governo de São Paulo. Aliás, desse tipo de dossiê o PT entende.
No país onde existe licença para roubar e para matar; que direitos humanos são apenas para bandidos; que é claro o objetivo de manter as novas gerações na ignorância ensinando que o certo é o errado, que 10 – 7 = 4; que a sociedade se encontra moralmente corrompida não sabendo mais distinguir entre o certo e o errado; outro enorme malefício, pouco notado, é inoculado pelos “intelectuais orgânicos” petistas. Vou chamá-lo de “princípio gulag”.
Este termo pertence a Vladmir Bukovsky, autor do “Tratado de Lisboa”, dirigido aos portugueses e aos demais europeus. Afirma o autor: “Na URSS tínhamos o gulag”. “Creio que ele existe também na UE, mas um gulag intelectual, designado por politicamente correto”.
De forma impressionante essa característica se adequa com perfeição também ao Brasil, pois conclui Bukovsky:
“Experimentem dizer o que pensam sobre questões como raça e sexualidade”. “Se suas opiniões não forem ‘boas’, ou seja, não forem politicamente corretas, vocês serão marginalizados”. “E isto é o começo do que podemos chamar de princípio gulag, ou seja, o começo da perda da liberdade”.
Lula da Silva diz que não é de esquerda e o PT, para conquistar o poder máximo da República, acalmou o sensível mercado. Curiosamente, porém, o PT age com métodos totalitários, pois a propaganda anestesiou a sociedade que se quedou extasiada diante da retórica inflamada de um pequeno Hitler terceiro-mundista. Ao mesmo tempo, palavras pervertidas apareceram com uma visão deslocada que deforma a perspectiva de conjunto. O PT criou uma “novilíngua” adaptada ao politicamente correto. Assim, somos confrontados a um astigmatismo social e político. Enxergar de outro modo seria preconceito o que acarreta autocensura. A continuar assim o PT não sai do poder nem daqui a vinte anos.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
www.maluvibar.blogspot.com
quinta-feira, 2 de junho de 2011
QUEM GOVERNA?
Maria Lucia Victor Barbosa
31/05/2011
A aparição do ex-presidente Luiz Inácio com objetivo de socorrer sua afilhada política, Dilma Rousseff, por conta do escândalo provocado pelo veloz enriquecimento do ex-trotskista, ex-prefeito de Ribeirão Preto, ex-ministro da fazenda, ex-deputado federal, atual chefe da Casa Civil e braço direito da presidente, Antonio Palocci, merece algumas reflexões.
Em fotos estampadas em jornais Luiz Inácio apareceu eufórico entre senadores do PT quase genuflexos diante do chefe. De calça branca, ao ex-presidente só faltavam os sapatos bicolores e o chapéu de panamá para completar o traje porque, como todos sabem, a política é feita de malandragem, assumindo frequentemente aspectos de capoeira.
Luiz Inácio, confortável em seu terceiro mandato, reuniu-se com partidos satélites do PT, almoçou com sua afilhada e o reincidente Palocci, deu muitos conselhos a Rousseff que prontamente obedeceu aos ditames do tutor. Ela deixou por breves momentos seu silêncio sepulcral, seu recolhimento misterioso e veio a público defender o risonho Palocci, mudo como a ex-primeira-dama Marisa Letícia que parece ter feito escola.
Não se sabe, porém, se a aparição de Rousseff apaziguou os ânimos das bases aliadas, que andam um tanto desalinhadas, se despistou as incríveis fábulas ganhas por um de seus “três porquinhos” de campanha.
A presidenta, como Rousseff gosta de ser chamada sendo, portanto, uma governanta e não uma governante, não pronunciou a famosa frase petista quando a situação aperta: “assunto encerrado”. Não conseguiu encerrar a encrenca Palocci e, pior, lançou dúvidas sobre o cargo presidencial sendo lícito perguntar: quem governa?
Como se sabe foi Luiz Inácio quem praticamente compôs o atual ministério indicando, pelo menos, os ministros mais importantes. E se chegou a dizer, segundo a imprensa, que sem Palocci o governo de Rousseff se arrastaria até o fim isto significa que não confia tanto assim na eficiência de sua sucessora como apregoava na campanha. Por que, então, a colocou lá?
Bem, em primeiro lugar, porque os possíveis quadros do seu partido não tinham condição de disputar nenhum cargo eletivo, ainda mais a presidência da República. Entre eles, José Dirceu, outro ministro da Casa Civil que teve sérios problemas com algo chamado eufemisticamente de “mensalão”, que na linguagem usual é denominado de suborno e punido como crime nos países onde as leis funcionam. Dirceu voltou à Câmara de deputados, foi cassado e chamado por uma autoridade do Judiciário de “chefe da quadrilha” do “mensalão”, o que não o impediu de ser feliz em suas consultorias e de ter exercido no PT influência decisiva. Dirceu está certo de que será perdoado de todas suas culpas na Justiça, como Palocci o foi e todos os “mensaleiros” serão. Então, quem sabe, alcançará seus sonhos mais elevados.
Entre os muitos “quadrilheiros” do “mensalão” estava também Delúbio Soares, tesoureiro do PT, que por ter seguido a lei omertá e assumido todas as culpas dos companheiros durante muito tempo teve em sua recente volta ao partido calorosa recepção. Impressionante contraste com o PT de outrora que se dizia o único partido ético, aquele que viria para mudar o que estava errado, inclusive, a corrupção.
Nos mandatos de Luiz Inácio a avalanche de escândalos nunca antes havida neste país foi bem assimilada pela sociedade, enquanto o presidente da república dizia nada saber a respeito dos fatos mesmo quando as falcatruas eram praticadas por seus subordinados mais próximos e íntimos.
Agora, no governo PT/Rousseff, o escândalo inicial atingiu novamente a Casa Civil que teve como inquilina anterior a ministra chamada jocosamente de Erê 6%, conhecida por suas práticas nada edificantes no exercício da função e que foi o braço direito da atual governanta. Também Erê parece seguir seu caminho sem medo de ser feliz.
Em segundo lugar, Luiz Inácio, sem opção para indicar seu sucessor entre companheiros de partido, parece ter pinçado Dilma Rousseff não por suas qualidades de excelência gerencial, mas, exatamente pela falta destas. Desse modo, se a herança maldita lulista na economia e na política seguir pesada demais em quem o povo porá a culpa? Em Rousseff e não naquele que virá novamente para salvar pobres e oprimidos em 2014. Afinal, o PT não pretende sair do poder pelo menos nos próximos 20 anos e já traçou seus caminhos facilitados pela ausência de oposições coerentes e firmes, pela falta de Poder Judiciário que puna crimes e abusos e da eficácia da propaganda que mantém a bestificação popular.
Palocci pode até ser beatificado junto com irmã Dulce, contudo, as ciladas do poder não garantem que roteiros traçados de antemão se realizem. Os aliados de hoje podem ser os adversários de amanhã no jogo pesado das ambições. Diante dos acontecimentos é cedo ainda para saber quem governa ou governará, se Luiz Inácio, Dilma Rousseff ou Michel Temer.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
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Maria Lucia Victor Barbosa
31/05/2011
A aparição do ex-presidente Luiz Inácio com objetivo de socorrer sua afilhada política, Dilma Rousseff, por conta do escândalo provocado pelo veloz enriquecimento do ex-trotskista, ex-prefeito de Ribeirão Preto, ex-ministro da fazenda, ex-deputado federal, atual chefe da Casa Civil e braço direito da presidente, Antonio Palocci, merece algumas reflexões.
Em fotos estampadas em jornais Luiz Inácio apareceu eufórico entre senadores do PT quase genuflexos diante do chefe. De calça branca, ao ex-presidente só faltavam os sapatos bicolores e o chapéu de panamá para completar o traje porque, como todos sabem, a política é feita de malandragem, assumindo frequentemente aspectos de capoeira.
Luiz Inácio, confortável em seu terceiro mandato, reuniu-se com partidos satélites do PT, almoçou com sua afilhada e o reincidente Palocci, deu muitos conselhos a Rousseff que prontamente obedeceu aos ditames do tutor. Ela deixou por breves momentos seu silêncio sepulcral, seu recolhimento misterioso e veio a público defender o risonho Palocci, mudo como a ex-primeira-dama Marisa Letícia que parece ter feito escola.
Não se sabe, porém, se a aparição de Rousseff apaziguou os ânimos das bases aliadas, que andam um tanto desalinhadas, se despistou as incríveis fábulas ganhas por um de seus “três porquinhos” de campanha.
A presidenta, como Rousseff gosta de ser chamada sendo, portanto, uma governanta e não uma governante, não pronunciou a famosa frase petista quando a situação aperta: “assunto encerrado”. Não conseguiu encerrar a encrenca Palocci e, pior, lançou dúvidas sobre o cargo presidencial sendo lícito perguntar: quem governa?
Como se sabe foi Luiz Inácio quem praticamente compôs o atual ministério indicando, pelo menos, os ministros mais importantes. E se chegou a dizer, segundo a imprensa, que sem Palocci o governo de Rousseff se arrastaria até o fim isto significa que não confia tanto assim na eficiência de sua sucessora como apregoava na campanha. Por que, então, a colocou lá?
Bem, em primeiro lugar, porque os possíveis quadros do seu partido não tinham condição de disputar nenhum cargo eletivo, ainda mais a presidência da República. Entre eles, José Dirceu, outro ministro da Casa Civil que teve sérios problemas com algo chamado eufemisticamente de “mensalão”, que na linguagem usual é denominado de suborno e punido como crime nos países onde as leis funcionam. Dirceu voltou à Câmara de deputados, foi cassado e chamado por uma autoridade do Judiciário de “chefe da quadrilha” do “mensalão”, o que não o impediu de ser feliz em suas consultorias e de ter exercido no PT influência decisiva. Dirceu está certo de que será perdoado de todas suas culpas na Justiça, como Palocci o foi e todos os “mensaleiros” serão. Então, quem sabe, alcançará seus sonhos mais elevados.
Entre os muitos “quadrilheiros” do “mensalão” estava também Delúbio Soares, tesoureiro do PT, que por ter seguido a lei omertá e assumido todas as culpas dos companheiros durante muito tempo teve em sua recente volta ao partido calorosa recepção. Impressionante contraste com o PT de outrora que se dizia o único partido ético, aquele que viria para mudar o que estava errado, inclusive, a corrupção.
Nos mandatos de Luiz Inácio a avalanche de escândalos nunca antes havida neste país foi bem assimilada pela sociedade, enquanto o presidente da república dizia nada saber a respeito dos fatos mesmo quando as falcatruas eram praticadas por seus subordinados mais próximos e íntimos.
Agora, no governo PT/Rousseff, o escândalo inicial atingiu novamente a Casa Civil que teve como inquilina anterior a ministra chamada jocosamente de Erê 6%, conhecida por suas práticas nada edificantes no exercício da função e que foi o braço direito da atual governanta. Também Erê parece seguir seu caminho sem medo de ser feliz.
Em segundo lugar, Luiz Inácio, sem opção para indicar seu sucessor entre companheiros de partido, parece ter pinçado Dilma Rousseff não por suas qualidades de excelência gerencial, mas, exatamente pela falta destas. Desse modo, se a herança maldita lulista na economia e na política seguir pesada demais em quem o povo porá a culpa? Em Rousseff e não naquele que virá novamente para salvar pobres e oprimidos em 2014. Afinal, o PT não pretende sair do poder pelo menos nos próximos 20 anos e já traçou seus caminhos facilitados pela ausência de oposições coerentes e firmes, pela falta de Poder Judiciário que puna crimes e abusos e da eficácia da propaganda que mantém a bestificação popular.
Palocci pode até ser beatificado junto com irmã Dulce, contudo, as ciladas do poder não garantem que roteiros traçados de antemão se realizem. Os aliados de hoje podem ser os adversários de amanhã no jogo pesado das ambições. Diante dos acontecimentos é cedo ainda para saber quem governa ou governará, se Luiz Inácio, Dilma Rousseff ou Michel Temer.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
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sábado, 7 de maio de 2011
MENSAGEIRO DO ÓDIO
Maria Lucia Victor Barbosa
06/05/2011
O brutal atentado ocorrido em 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos mostrou ao mundo de modo ampliado uma das faces mais temidas da violência: o terrorismo. Ao susto e à dor provocados pelo covarde ataque às Torres do World Trade Center e ao prédio do Pentágono, no qual centenas de norte-americanos e estrangeiros, entre os quais quatro brasileiros, morreram de modo pavoroso, seguiram-se intensamente, pelo menos no período imediato ao hediondo ataque, o medo e a insegurança. Justamente sobre esses dois sentimentos o terror lança tentáculos para produzir a dominação sobre suas vítimas.
Viver com medo é tornar-se escravo e foi esta escravidão psicológica que o monstruoso Osama Bin Laden, misto de fanático e psicopata, prometeu aos Estados Unidos por ele chamado de “Grande Satã”. O profeta do caos alardeou que faria chover aviões sobre aquele país e volta e meia, para escarnecer dos norte-americanos que durante quase dez anos o procuraram em vão, tornou-se o mensageiro do ódio através de mensagens gravadas em áudio e divulgadas, principalmente, pela rede de TV Al-Jazeera.
Em algum lugar que não se sabia onde a figura sinistra do criador do Al-Qaeda (a base) em 1988, sobreviveu por muito tempo depois do atentado de 11 de setembro de 2001, lembrando que o terror significa a tensa espera de um inimigo que ataca sem se fazer anunciar e em lugares inesperados.
O milionário saudita, que na expressão de Giles Lapouge era “a quintessência do islamismo mais enlouquecido”, foi responsável por inúmeros atentados e pela morte de centenas de pessoas inocentes Entre seus seguidores estavam Jihadistas islâmicos, mujahedins (jihadistas de origem iraniana), terroristas radicais antissemitas, o que significa que sua guerra santa era também contra os judeus, algo que faz lembrar a figura também abjeta do iraniano Ahmadinejad cuja meta é destruir Israel.
A recente morte de Bin Laden, em 1 de maio, numa operação espetacular do governo norte-americano livrou, portanto, o mundo de um desses monstros que de quando em quando assombram a humanidade. Mas, se nos Estados Unidos houve alívio e euforia, entre os fundamentalistas islâmicos houve choro e ranger de dentes.
Manifestações de veneração, admiração e carinho pelo genocida Bin Laden não faltaram também entre antiamericanos, antissemitas e esquerdistas de todo mundo. Logo apareceram defensores dos direitos humanos que não foram vistos quando despencaram as Torres Gêmeas em Nova York. E há os que se apiedaram do pobre terrorista, como se numa guerra os que tombam não soubessem que nela estão para matar ou morrer. Na mesma linha de defesa do criminoso e crítica aos Estados Unidos é dito que esse país invadiu o Paquistão. Ora, o Paquistão é aliado do governo norte-americano para combate ao terrorismo e para isto recebe milhões de dólares. Portanto, se alguém falhou foi o governo paquistanês, pois Bin Laden morou por longo tempo na cidade paquistanesa de Abbottabad, quase dentro de um quartel general.
Na América Latina, onde os Estados Unidos são também odiados, houve curiosas manifestações. Na Argentina dois homens de nome Musa Isa e Santiago Torres expressaram através de jornal seus profundos pêsames à família do terrorista. No Brasil, um vereador gaiato da cidade de Anápolis (Goiás) pediu na Câmara um minuto de silêncio em homenagem ao companheiro Bin Laden. Só falta pedir a canonização de Bin Laden juntamente com Hitler.
Discute-se muito no momento se com a morte do líder globalizado e símbolo máximo do Al Qaeda haverá ou não revanches ensandecidas de seus seguidores contra os Estados Unidos e outros países. Provavelmente haverá, pois existem franquias da rede terrorista no Norte da África e no Oriente Médio. E outros grupos como o Lashkar-i-Taiba ou o Taleban continuarão a matar os que considerem como infiéis. Ao mesmo tempo, se é certo que Bin Laden não exercia mais o comando operacional do Al-Qaeda, sendo da organização figura mitológica e inspiradora, outros na hierarquia podem dar sequência aos atos de terror. De qualquer modo, a morte do líder deve ter causado grande dano psicológico aos seus seguidores, em que pese sua lembrança maligna continuar a influenciar os que são recrutados em nome da ideologia que veta ódio ao ocidente e da fé fundamentalista islâmica.
O Brasil, país da impunidade e da moralidade frouxa, tem predileção por bandidos, pois aqui se abrigam desde o terrorista italiano Cesare Battisti até membros das Farc. Para piorar e conforme reportagem da Veja de 6 de abril deste ano, “a Polícia Federal tem provas de que Al Qaeda e outras quatro organizações extremistas usam o país para divulgar propaganda, planejar atendados, financiar operações e aliciar militantes”. Desconheço se o governo brasileiro desmentiu a reportagem ou tomou providências.
Na tragédia da escola de Realengo, no Rio de janeiro, quando um ex-aluno matou doze adolescentes, a causa do ato tresloucado foi atribuída a mente perturbada do rapaz e no péssimo exemplo que vem dos Estados Unidos. Curiosamente, Wellington de Oliveira sonhava jogar um avião contra o Cristo Redentor para relembrar os aviões que foram atirados nas Torres Gêmeas em Nova York. Em uma das fichas da escola quando era estudante, ele escreveu que sua religião era mulçumana. Em anotações encontradas na sua bolsa havia o relato de que passava umas quatro horas por dia lendo o Alcorão e que meditava sobre o atentado de 2001. Finalmente, pede em carta um ritual de sepultamento que lembra ritos mulçumanos. Nada disso foi levado em conta para explicar sua atitude.
O presidente Barack Obama agiu certíssimo, mas seria bom que desse uma prova contundente de que o mundo está mais arejado sem o mensageiro ódio. Caso contrário, Bim Laden ficará tão vivo quanto Elvis que não morreu.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
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Maria Lucia Victor Barbosa
06/05/2011
O brutal atentado ocorrido em 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos mostrou ao mundo de modo ampliado uma das faces mais temidas da violência: o terrorismo. Ao susto e à dor provocados pelo covarde ataque às Torres do World Trade Center e ao prédio do Pentágono, no qual centenas de norte-americanos e estrangeiros, entre os quais quatro brasileiros, morreram de modo pavoroso, seguiram-se intensamente, pelo menos no período imediato ao hediondo ataque, o medo e a insegurança. Justamente sobre esses dois sentimentos o terror lança tentáculos para produzir a dominação sobre suas vítimas.
Viver com medo é tornar-se escravo e foi esta escravidão psicológica que o monstruoso Osama Bin Laden, misto de fanático e psicopata, prometeu aos Estados Unidos por ele chamado de “Grande Satã”. O profeta do caos alardeou que faria chover aviões sobre aquele país e volta e meia, para escarnecer dos norte-americanos que durante quase dez anos o procuraram em vão, tornou-se o mensageiro do ódio através de mensagens gravadas em áudio e divulgadas, principalmente, pela rede de TV Al-Jazeera.
Em algum lugar que não se sabia onde a figura sinistra do criador do Al-Qaeda (a base) em 1988, sobreviveu por muito tempo depois do atentado de 11 de setembro de 2001, lembrando que o terror significa a tensa espera de um inimigo que ataca sem se fazer anunciar e em lugares inesperados.
O milionário saudita, que na expressão de Giles Lapouge era “a quintessência do islamismo mais enlouquecido”, foi responsável por inúmeros atentados e pela morte de centenas de pessoas inocentes Entre seus seguidores estavam Jihadistas islâmicos, mujahedins (jihadistas de origem iraniana), terroristas radicais antissemitas, o que significa que sua guerra santa era também contra os judeus, algo que faz lembrar a figura também abjeta do iraniano Ahmadinejad cuja meta é destruir Israel.
A recente morte de Bin Laden, em 1 de maio, numa operação espetacular do governo norte-americano livrou, portanto, o mundo de um desses monstros que de quando em quando assombram a humanidade. Mas, se nos Estados Unidos houve alívio e euforia, entre os fundamentalistas islâmicos houve choro e ranger de dentes.
Manifestações de veneração, admiração e carinho pelo genocida Bin Laden não faltaram também entre antiamericanos, antissemitas e esquerdistas de todo mundo. Logo apareceram defensores dos direitos humanos que não foram vistos quando despencaram as Torres Gêmeas em Nova York. E há os que se apiedaram do pobre terrorista, como se numa guerra os que tombam não soubessem que nela estão para matar ou morrer. Na mesma linha de defesa do criminoso e crítica aos Estados Unidos é dito que esse país invadiu o Paquistão. Ora, o Paquistão é aliado do governo norte-americano para combate ao terrorismo e para isto recebe milhões de dólares. Portanto, se alguém falhou foi o governo paquistanês, pois Bin Laden morou por longo tempo na cidade paquistanesa de Abbottabad, quase dentro de um quartel general.
Na América Latina, onde os Estados Unidos são também odiados, houve curiosas manifestações. Na Argentina dois homens de nome Musa Isa e Santiago Torres expressaram através de jornal seus profundos pêsames à família do terrorista. No Brasil, um vereador gaiato da cidade de Anápolis (Goiás) pediu na Câmara um minuto de silêncio em homenagem ao companheiro Bin Laden. Só falta pedir a canonização de Bin Laden juntamente com Hitler.
Discute-se muito no momento se com a morte do líder globalizado e símbolo máximo do Al Qaeda haverá ou não revanches ensandecidas de seus seguidores contra os Estados Unidos e outros países. Provavelmente haverá, pois existem franquias da rede terrorista no Norte da África e no Oriente Médio. E outros grupos como o Lashkar-i-Taiba ou o Taleban continuarão a matar os que considerem como infiéis. Ao mesmo tempo, se é certo que Bin Laden não exercia mais o comando operacional do Al-Qaeda, sendo da organização figura mitológica e inspiradora, outros na hierarquia podem dar sequência aos atos de terror. De qualquer modo, a morte do líder deve ter causado grande dano psicológico aos seus seguidores, em que pese sua lembrança maligna continuar a influenciar os que são recrutados em nome da ideologia que veta ódio ao ocidente e da fé fundamentalista islâmica.
O Brasil, país da impunidade e da moralidade frouxa, tem predileção por bandidos, pois aqui se abrigam desde o terrorista italiano Cesare Battisti até membros das Farc. Para piorar e conforme reportagem da Veja de 6 de abril deste ano, “a Polícia Federal tem provas de que Al Qaeda e outras quatro organizações extremistas usam o país para divulgar propaganda, planejar atendados, financiar operações e aliciar militantes”. Desconheço se o governo brasileiro desmentiu a reportagem ou tomou providências.
Na tragédia da escola de Realengo, no Rio de janeiro, quando um ex-aluno matou doze adolescentes, a causa do ato tresloucado foi atribuída a mente perturbada do rapaz e no péssimo exemplo que vem dos Estados Unidos. Curiosamente, Wellington de Oliveira sonhava jogar um avião contra o Cristo Redentor para relembrar os aviões que foram atirados nas Torres Gêmeas em Nova York. Em uma das fichas da escola quando era estudante, ele escreveu que sua religião era mulçumana. Em anotações encontradas na sua bolsa havia o relato de que passava umas quatro horas por dia lendo o Alcorão e que meditava sobre o atentado de 2001. Finalmente, pede em carta um ritual de sepultamento que lembra ritos mulçumanos. Nada disso foi levado em conta para explicar sua atitude.
O presidente Barack Obama agiu certíssimo, mas seria bom que desse uma prova contundente de que o mundo está mais arejado sem o mensageiro ódio. Caso contrário, Bim Laden ficará tão vivo quanto Elvis que não morreu.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
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quarta-feira, 20 de abril de 2011
BAIXA CLASSE MÉDIA: UM FATO CRÍTICO
Maria Lucia Victor Barbosa
Um fato crítico em ciência significa um fato que prende a atenção e, que por isso, precisa ser explicado. A classe média baixa ou C tornou-se um fato crítico por alguns motivos. Entre eles é preciso explicar que a ascensão de parcela da classe baixa ou D à classe C, tem sido usada pelo governo petista como feito unicamente seu, mas, principalmente, como ato redentor de Lula da Silva, o salvador da pátria.
Todavia, a política distributivista que proporcionou a mobilidade social ascendente de uma parcela de brasileiros foi um processo desencadeado no governo de Fernando Henrique Cardoso. Prosseguiu no governo Lula com o apelo constante ao consumismo facilitado em suaves prestações e caridades oficiais.
Fundamentalmente, porém, a melhoria do nível de vida da população brasileira como um todo foi impulsionada pelo Plano Real de FHC, que domou a inflação e estabilizou a economia. Sem isso seria impossível grandes mudanças na pirâmide social.
Recentemente a classe C tornou-se de novo fato crítico a merecer explicação. Isso se deu quando o ex-presidente FHC, em artigo para uma revista, sugeriu ao seu partido, o PSDB e aliados, investir na classe C na medida em que o PT domina os movimentos sociais e o “povão”.
Bastou a palavra “povão”, muito usada pela esquerda, para os petistas e o populista Lula erguerem as bandeiras, rufarem os tambores e caírem de pau em cima de FHC, como é de seu costume. Lula, que parece desenvolver um sentimento doentio de inferioridade com relação ao tucano, aproveitou a deixa para espalhar que FHC e o PSDB detestam pobres. Nada a ver, é claro. FHC apenas pensou politicamente, pois as classes médias A, B e C constituem a maioria ou, aproximadamente, 52% da população brasileira. Só na classe C estão aproximadamente 38,8% dos brasileiros com carências e aspirações de várias espécies, portanto, um espaço especial para o trabalho dos políticos.
Diga-se de passagem, que o conceito de classe social varia na concepção de vários sociólogos e não cabe num pequeno artigo aprofundar o tema. Para para citar uma definição escolho a do sociólogo Max Weber, segundo o qual “classes são agregados de indivíduos que têm as mesmas oportunidades de adquirir mercadorias e exibem o mesmo padrão de vida”. Acrescento que classes sociais, em que pese o mundo massificado em que vivemos, possuem comportamentos, valores e atitudes diferenciados que possibilitam distingui-las.
A parcela da classe C que emergiu da classe D, não pode deixar também de apresentar características de psicologia coletiva que a faz subserviente em relação aos que estão em posição superior, mantendo no fundo a aspiração de ser igual ou ter o mesmo padrão de vida das classes mais altas. Afinal, o ser humano sempre quer ter mais de forma insaciável, inclusive, prestígio. Mas, para alcançar o status mais elevado os indivíduos da classe C teriam que ultrapassar sua origem familiar, casamento, história profissional e instrução. Isso é possível para alguns ou para muitos indivíduos, mas, dependendo das circunstâncias econômicas, a mobilidade pode ser ascendente ou descendente. Do jeito que a inflação segue descontrolada, dos mecanismos governamentais que desesperadamente tentam contê-la penalizando os que já se acostumaram com as facilidades do crédito, não é difícil que parcela da classe C retorne à classe D ou até à mais baixa classe E.
Observe-se ainda, que nem todos os que pertencem à classe C chegarão como num passe de mágica a professores universitários, profissionais liberais, funcionários públicos, altos cargos burocráticos ou políticos como os “colarinhos brancos” das classes médias A e B. Entretanto, não só as dádivas caídas dos céus estatais e a ampliação da burocracia, mas os empregos propiciados pela iniciativa privada e a multiplicidade de novas funções geradas pelo avanço da tecnologia e pelos meios de comunicação da sociedade globalizada, possibilitaram a parcela da classe D ascender e integrar a classe C que, frise-se, já existia e apenas se tornou mais numerosa.
Lembremos também que a Educação chegou a um nível tão baixo de qualidade, que há falta de mão-de-obra mais especializada e sofisticada, estando os grandes empresários obrigados a importar profissionais do exterior. Num extremo oposto, faltam operários da construção civil porque o segmento da classe D, que ascendeu à classe C, já não aceita o trabalho pesado e mal remunerado dos que constroem os cada vez mais numerosos edifícios nas metrópoles e nas cidades de porte médio.
Duas características marcam também todas as classes sociais: o individualismo e a indiferença política. Apenas em épocas de campanha algum interesse aparece. Concentra-se em determinado ou determinados candidatos com potencial carismático ou demagógico, capazes de propiciar vantagens individuais. Nenhuma ideologia ou questões de princípios estão presentes nas campanhas onde as propostas dos postulantes aos cargos públicos quase não se distinguem e os partidos são meros clubes de interesses.
Finalizando concordo com o pensamento de C. Wright Mills em sua obra “White Collar”, adaptando-o a nossa realidade:
As posições particulares como indivíduos de nossas classes médias é que determinam a direção para onde elas se encaminham. Mas seus indivíduos não sabem para onde ir. Por isso vacilam, confusos e hesitantes em suas opiniões, desordenados e descontínuos em suas ações. Formam um coro medroso demais para protestar, histérico demais em suas manifestações de aprovação. Constituem uma retaguarda. Estão à venda no mercado político e qualquer um que pareça bastante confiável tem probabilidade de comprá-las.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
Maria Lucia Victor Barbosa
Um fato crítico em ciência significa um fato que prende a atenção e, que por isso, precisa ser explicado. A classe média baixa ou C tornou-se um fato crítico por alguns motivos. Entre eles é preciso explicar que a ascensão de parcela da classe baixa ou D à classe C, tem sido usada pelo governo petista como feito unicamente seu, mas, principalmente, como ato redentor de Lula da Silva, o salvador da pátria.
Todavia, a política distributivista que proporcionou a mobilidade social ascendente de uma parcela de brasileiros foi um processo desencadeado no governo de Fernando Henrique Cardoso. Prosseguiu no governo Lula com o apelo constante ao consumismo facilitado em suaves prestações e caridades oficiais.
Fundamentalmente, porém, a melhoria do nível de vida da população brasileira como um todo foi impulsionada pelo Plano Real de FHC, que domou a inflação e estabilizou a economia. Sem isso seria impossível grandes mudanças na pirâmide social.
Recentemente a classe C tornou-se de novo fato crítico a merecer explicação. Isso se deu quando o ex-presidente FHC, em artigo para uma revista, sugeriu ao seu partido, o PSDB e aliados, investir na classe C na medida em que o PT domina os movimentos sociais e o “povão”.
Bastou a palavra “povão”, muito usada pela esquerda, para os petistas e o populista Lula erguerem as bandeiras, rufarem os tambores e caírem de pau em cima de FHC, como é de seu costume. Lula, que parece desenvolver um sentimento doentio de inferioridade com relação ao tucano, aproveitou a deixa para espalhar que FHC e o PSDB detestam pobres. Nada a ver, é claro. FHC apenas pensou politicamente, pois as classes médias A, B e C constituem a maioria ou, aproximadamente, 52% da população brasileira. Só na classe C estão aproximadamente 38,8% dos brasileiros com carências e aspirações de várias espécies, portanto, um espaço especial para o trabalho dos políticos.
Diga-se de passagem, que o conceito de classe social varia na concepção de vários sociólogos e não cabe num pequeno artigo aprofundar o tema. Para para citar uma definição escolho a do sociólogo Max Weber, segundo o qual “classes são agregados de indivíduos que têm as mesmas oportunidades de adquirir mercadorias e exibem o mesmo padrão de vida”. Acrescento que classes sociais, em que pese o mundo massificado em que vivemos, possuem comportamentos, valores e atitudes diferenciados que possibilitam distingui-las.
A parcela da classe C que emergiu da classe D, não pode deixar também de apresentar características de psicologia coletiva que a faz subserviente em relação aos que estão em posição superior, mantendo no fundo a aspiração de ser igual ou ter o mesmo padrão de vida das classes mais altas. Afinal, o ser humano sempre quer ter mais de forma insaciável, inclusive, prestígio. Mas, para alcançar o status mais elevado os indivíduos da classe C teriam que ultrapassar sua origem familiar, casamento, história profissional e instrução. Isso é possível para alguns ou para muitos indivíduos, mas, dependendo das circunstâncias econômicas, a mobilidade pode ser ascendente ou descendente. Do jeito que a inflação segue descontrolada, dos mecanismos governamentais que desesperadamente tentam contê-la penalizando os que já se acostumaram com as facilidades do crédito, não é difícil que parcela da classe C retorne à classe D ou até à mais baixa classe E.
Observe-se ainda, que nem todos os que pertencem à classe C chegarão como num passe de mágica a professores universitários, profissionais liberais, funcionários públicos, altos cargos burocráticos ou políticos como os “colarinhos brancos” das classes médias A e B. Entretanto, não só as dádivas caídas dos céus estatais e a ampliação da burocracia, mas os empregos propiciados pela iniciativa privada e a multiplicidade de novas funções geradas pelo avanço da tecnologia e pelos meios de comunicação da sociedade globalizada, possibilitaram a parcela da classe D ascender e integrar a classe C que, frise-se, já existia e apenas se tornou mais numerosa.
Lembremos também que a Educação chegou a um nível tão baixo de qualidade, que há falta de mão-de-obra mais especializada e sofisticada, estando os grandes empresários obrigados a importar profissionais do exterior. Num extremo oposto, faltam operários da construção civil porque o segmento da classe D, que ascendeu à classe C, já não aceita o trabalho pesado e mal remunerado dos que constroem os cada vez mais numerosos edifícios nas metrópoles e nas cidades de porte médio.
Duas características marcam também todas as classes sociais: o individualismo e a indiferença política. Apenas em épocas de campanha algum interesse aparece. Concentra-se em determinado ou determinados candidatos com potencial carismático ou demagógico, capazes de propiciar vantagens individuais. Nenhuma ideologia ou questões de princípios estão presentes nas campanhas onde as propostas dos postulantes aos cargos públicos quase não se distinguem e os partidos são meros clubes de interesses.
Finalizando concordo com o pensamento de C. Wright Mills em sua obra “White Collar”, adaptando-o a nossa realidade:
As posições particulares como indivíduos de nossas classes médias é que determinam a direção para onde elas se encaminham. Mas seus indivíduos não sabem para onde ir. Por isso vacilam, confusos e hesitantes em suas opiniões, desordenados e descontínuos em suas ações. Formam um coro medroso demais para protestar, histérico demais em suas manifestações de aprovação. Constituem uma retaguarda. Estão à venda no mercado político e qualquer um que pareça bastante confiável tem probabilidade de comprá-las.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
domingo, 27 de março de 2011
SERÁ QUE NOSSA POLÍTICA EXTERNA MUDOU?
Maria Lucia Victor Barbosa
Em 24 de março, a representação do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da ONU votou a favor da proposta dos Estados Unidos e Europa que determina o envio de um relator independente ao Irã para investigar a situação dos direitos humanos naquele país, coisa que Ahmadinejad já avisou que não aceita.
Surpreendida, a diplomacia iraniana sentiu-se traída e afirmou que o Brasil voltava a se comportar como “país pequeno”, “curvando-se aos Estados Unidos”. Outros países islâmicos também atacaram a posição brasileira.
Na verdade, o Irã esperava a continuidade da politica do governo anterior que poupou o regime iraniano de censura em fóruns internacionais, além de apoiar direta ou indiretamente através de abstenções, os piores ditadores mundiais que jamais souberam o significado de direitos humanos. Foram oito anos de uma política externa vergonhosa e repugnante, na qual não faltaram erros crassos e patacoadas como no caso de Honduras cujo governo o Brasil não reconhece até hoje.
Em 2008 começaram a se estreitar ainda mais os laços do Brasil com o Irã e o então chanceler, Celso Amorim, foi à Teerã acompanhado de 30 empresários. “Negócios são negócios” disse o pragmático Amorim e desrespeito total aos direitos humanos existe em toda parte, como afirmou o chanceler de fato, Marco Aurélio Garcia, quando acompanhou o ex-presidente Lula à Cuba. Na ocasião Lula comparou os dissidentes cubanos que faziam greve de fome a criminosos comuns enquanto o corpo martirizado de um deles, Orlando Zapata Tamayo, esfriava no caixão.
Em 2009 Mahmoud Ahmadinejad foi convidado a vir ao Brasil. Não veio e houve forte oposição a sua vinda por grupos por ele discriminados como judeus, perseguidos como mulheres e homossexuais. As esquerdas não se manifestaram em que pese terem ressuscitado o ultrapassado “fora ianque” na forma de “fora Obama”, quando da recente visita do presidente norte-americano ao Brasil. Naquele mesmo ano Ahmadinejad se elegeu com fortes indícios de fraude. O ex-presidente Lula qualificou os protestos que se seguiram e o massacre feitos por Ahmadinejad aos opositores como “choro de perdedores” e “briga de vascaínos e flamenguistas”. Mais um vexame internacional.
2010. Além da missão econômica que em abril partiu rumo ao Irã, em maio Lula seguiu para lá como o primeiro presidente a visitar aquelas terras. Ele fez mais: uniu-se à Turquia para mediar um acordo internacional para que Teerã aceitasse discutir seu programa nuclear, coisa que já tinha sido tentada em vão pelos Estados Unidos. A proposta, como era de se esperar, foi rejeitada pela ONU, o que deixou o Brasil e a Turquia falando sozinhos. No caso de iraniana Sakineh, condenada à morte por apedrejamento, primeiro Lula disse que não se intrometia nas leis de outros países. Depois mudou de ideia e resolveu colaborar com o companheiro Ahmadinejad: “se a mulher está incomodando, mande-a para cá”. Entretanto, na ONU o Brasil se recusou a apoiar a resolução que condenava o apedrejamento, alegando que se trata de “questão cultural”.
Desse modo, é compreensível a fúria do governo iraniano diante do voto brasileiro a favor da ida do relator. Por outro lado, bastou tal voto para que grandes saudações, vivas e cumprimentos nacionais e internacionais fossem dados euforicamente a presidente ou presidenta, governante ou governanta, Dilma Rousseff. Está sendo dito que ela mudou o rumo da política externa brasileira, que se distanciou do seu padrinho político, que o Brasil agora tem princípios. Mas será que mudou mesmo alguma ou apenas mudou a estratégia para obter o obsessivamente desejado Assento no Conselho de Segurança da ONU?
Note-se que o Brasil, que votou a favor da fiscalização no Irã, absteve-se de votar quando a Rússia, apoiada pela China e países árabes, propôs subordinar a questão dos direitos humanos aos “valores e tradições locais”.
Observe-se também, que no caso do Irã o Itamaraty demonstra que continuará a apoiar seu programa nuclear que, certamente, ao culminar na bomba, tratará de exterminar pacificamente Israel em primeiro lugar.
Também Cuba poderá contar com o tradicional apoio brasileiro, enquanto dissidentes “criminosos morrem em greve de fome em nome da liberdade.
Nossa diplomacia convive tão bem com o terrorismo que não esboçou nenhuma reação quando cinco pessoas da família Fogel, o pai a mãe, o bebê de três meses e mais dois meninos foram brutalmente assassinados a facadas enquanto dormiam no assentamento de Itamar, na Samaria. Talvez, isso faça parte dos “valores e tradições” do terrorismo e devem ser respeitados. Nessa toada, se algum país resolvesse institucionalizar o canibalismo o Brasil apoiaria, pois é questão cultural.
Vamos ver se dessa vez o Brasil conquista seu grandioso sonho: o assento no Conselho de Segurança da ONU, mas que falta muito para nossa politica externa mudar, isso lá falta.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
www.maluvibar.blogspot.com
Maria Lucia Victor Barbosa
Em 24 de março, a representação do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da ONU votou a favor da proposta dos Estados Unidos e Europa que determina o envio de um relator independente ao Irã para investigar a situação dos direitos humanos naquele país, coisa que Ahmadinejad já avisou que não aceita.
Surpreendida, a diplomacia iraniana sentiu-se traída e afirmou que o Brasil voltava a se comportar como “país pequeno”, “curvando-se aos Estados Unidos”. Outros países islâmicos também atacaram a posição brasileira.
Na verdade, o Irã esperava a continuidade da politica do governo anterior que poupou o regime iraniano de censura em fóruns internacionais, além de apoiar direta ou indiretamente através de abstenções, os piores ditadores mundiais que jamais souberam o significado de direitos humanos. Foram oito anos de uma política externa vergonhosa e repugnante, na qual não faltaram erros crassos e patacoadas como no caso de Honduras cujo governo o Brasil não reconhece até hoje.
Em 2008 começaram a se estreitar ainda mais os laços do Brasil com o Irã e o então chanceler, Celso Amorim, foi à Teerã acompanhado de 30 empresários. “Negócios são negócios” disse o pragmático Amorim e desrespeito total aos direitos humanos existe em toda parte, como afirmou o chanceler de fato, Marco Aurélio Garcia, quando acompanhou o ex-presidente Lula à Cuba. Na ocasião Lula comparou os dissidentes cubanos que faziam greve de fome a criminosos comuns enquanto o corpo martirizado de um deles, Orlando Zapata Tamayo, esfriava no caixão.
Em 2009 Mahmoud Ahmadinejad foi convidado a vir ao Brasil. Não veio e houve forte oposição a sua vinda por grupos por ele discriminados como judeus, perseguidos como mulheres e homossexuais. As esquerdas não se manifestaram em que pese terem ressuscitado o ultrapassado “fora ianque” na forma de “fora Obama”, quando da recente visita do presidente norte-americano ao Brasil. Naquele mesmo ano Ahmadinejad se elegeu com fortes indícios de fraude. O ex-presidente Lula qualificou os protestos que se seguiram e o massacre feitos por Ahmadinejad aos opositores como “choro de perdedores” e “briga de vascaínos e flamenguistas”. Mais um vexame internacional.
2010. Além da missão econômica que em abril partiu rumo ao Irã, em maio Lula seguiu para lá como o primeiro presidente a visitar aquelas terras. Ele fez mais: uniu-se à Turquia para mediar um acordo internacional para que Teerã aceitasse discutir seu programa nuclear, coisa que já tinha sido tentada em vão pelos Estados Unidos. A proposta, como era de se esperar, foi rejeitada pela ONU, o que deixou o Brasil e a Turquia falando sozinhos. No caso de iraniana Sakineh, condenada à morte por apedrejamento, primeiro Lula disse que não se intrometia nas leis de outros países. Depois mudou de ideia e resolveu colaborar com o companheiro Ahmadinejad: “se a mulher está incomodando, mande-a para cá”. Entretanto, na ONU o Brasil se recusou a apoiar a resolução que condenava o apedrejamento, alegando que se trata de “questão cultural”.
Desse modo, é compreensível a fúria do governo iraniano diante do voto brasileiro a favor da ida do relator. Por outro lado, bastou tal voto para que grandes saudações, vivas e cumprimentos nacionais e internacionais fossem dados euforicamente a presidente ou presidenta, governante ou governanta, Dilma Rousseff. Está sendo dito que ela mudou o rumo da política externa brasileira, que se distanciou do seu padrinho político, que o Brasil agora tem princípios. Mas será que mudou mesmo alguma ou apenas mudou a estratégia para obter o obsessivamente desejado Assento no Conselho de Segurança da ONU?
Note-se que o Brasil, que votou a favor da fiscalização no Irã, absteve-se de votar quando a Rússia, apoiada pela China e países árabes, propôs subordinar a questão dos direitos humanos aos “valores e tradições locais”.
Observe-se também, que no caso do Irã o Itamaraty demonstra que continuará a apoiar seu programa nuclear que, certamente, ao culminar na bomba, tratará de exterminar pacificamente Israel em primeiro lugar.
Também Cuba poderá contar com o tradicional apoio brasileiro, enquanto dissidentes “criminosos morrem em greve de fome em nome da liberdade.
Nossa diplomacia convive tão bem com o terrorismo que não esboçou nenhuma reação quando cinco pessoas da família Fogel, o pai a mãe, o bebê de três meses e mais dois meninos foram brutalmente assassinados a facadas enquanto dormiam no assentamento de Itamar, na Samaria. Talvez, isso faça parte dos “valores e tradições” do terrorismo e devem ser respeitados. Nessa toada, se algum país resolvesse institucionalizar o canibalismo o Brasil apoiaria, pois é questão cultural.
Vamos ver se dessa vez o Brasil conquista seu grandioso sonho: o assento no Conselho de Segurança da ONU, mas que falta muito para nossa politica externa mudar, isso lá falta.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
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domingo, 13 de fevereiro de 2011
PT 13. PARTE 3. ELES CONTINUAM
Maria Lucia Victor Barbosa
13/02/2011
A propaganda é um ardiloso método que possibilita ir ao encontro da necessidade dos homens de serem enganados ou de se alienarem a um ídolo para o qual transferem suas supostas melhores qualidades. A criatura humana ama a mentira porque precisa de sonhos e os propagandistas sabem muito bem disso.
No caso específico dos políticos, se sua constante autoglorificação é tão velha quando o mundo e parece ultrapassar a dos demais indivíduos, não dispensam, contudo, a ajuda dos marqueteiros. Entretanto, prefiro como coloquei incialmente, usar com relação à política, a ajuda dos propagandistas, na medida em que propaganda objetiva difundir doutrinas e programas.
Foi a partir da Primeira Guerra Mundial que se deu o uso oficial da propaganda. Usada de forma sinistra, repugnante e mentirosa nos sistemas totalitários, comunista e nazista, não excluiu nos dias de hoje a manipulação das opiniões por um indivíduo ou grupo a fim de alcançar seus próprios fins. Transforma-se, assim, a propaganda numa tremenda arte de manipulação que induz pessoas a acreditarem no que não existe. Iludida, a maioria é conduzida para desfechos que lhes são traçados por vontades alheias à sua, sem sequer perceber o ardil.
Á partir da ajuda da propaganda o político constrói uma imagem na qual seleciona seus melhores traços, geralmente imaginários e plenos de narcisismo e, desse modo, se oferece para o culto de sua personalidade.
Foi desse modo que o raivoso Lula dos palanques, que manda exterminar partidos, adora ditadores quando lhe convém, mostra seu desgosto pela imprensa livre foi transformado para ganhar eleição no “Lulinha paz e amor”, de terno Armani, barba aparada, discurso adequado para não amedrontar capitalistas com a toada revolucionária da luta de classes. No poder Lula lembrou Mussolini que desejava “fazer da própria vida sua obra-prima”.
Lula logrou eleger sua sucessora e imediatamente a propaganda começou construir a imagem de Rousseff baseada na reclusão na qual ela parece se refugiar por, talvez, lhe faltar aquela tarimba política que faz a delícia das multidões, o raciocínio apto a responder de pronto ás perguntas de jornalistas e certo grau de bom humor para compensar a aspereza no trato. Mas, como num passe de mágica, a propaganda construiu para Rousseff a imagem idealizada de uma rainha distante, romanticamente resguardada em sua torre de marfim.
Apesar da propaganda, Rousseff começa seu “reinado” com grandes dificuldades oriundas do governo do qual participou, sendo que a mais grave de todas é a inflação que já galopa de modo descontrolado Em busca de continuidade, Lula acabou largando várias granadas sem pino no colo da sucessora.
Como explicou Celso Ming referindo-se ao recente pacote governamental do corte de R$ 50 bilhões, do qual muitos duvidam da eficácia: “Se agora fica admitida a necessidade de cortes, então fica também reconhecida a existência da inflação de demanda, provocada pela forte geração de renda que se seguiu à disparada do gasto público com fins eleitorais, que, por sua vez, gerou forte descompasso entre procura e oferta de bens e serviços” (O Estado de S. Paulo – 11/02/2011).
Rousseff, ex-ministra de Minas e Energia, tem à frente pesada herança maldita que inclui apagões que vêm acontecendo com frequência, sendo que o último atingiu no dia 4 deste mês oito Estados do Nordeste. A tendência é piorar enquanto os brasileiros pagam pela energia um dos preços mais altos do mundo.
Problemas seríssimos como o dos aeroportos, da Saúde, da Educação, da Copa do Mundo com orçamento já estourado e obras atrasadas, das Olimpíadas e muitos outros mais, todos herdados do governo Lula vão deixar a “rainha” cada vez mais enfurnada em seu castelo, restando-lhe o gênero clássico de apresentação na TV, a alocução, quando o governante monologa e se dirige diretamente aos telespectadores. O resultado geralmente é tedioso e medíocre como aconteceu com recente aparição de Rousseff.
Não há dúvida de que o atual governo tem a marca do continuísmo, apesar de já ter começado a inevitável comparação entre Lula e Rousseff. Note-se que os ministros mais importantes são os mesmos, reconduzidos por Lula que já voltou aos palanques e confirmou sua continuidade na festa de aniversário do PT ao dizer: “Eu apenas não estou no governo”. “Mas sou governo como qualquer companheiro que está no governo”. “Minha relação política com Dilma é indissociável nos bons e nos maus momentos”.
Os companheiros de governo que estavam na festa de 31 anos do PT para saudar seu presidente de honra e desagravar José Dirceu eram os mesmos “mensaleiros”, especialistas em dossiês, governadores e ministros, alguns com problemas na Justiça. José Dirceu, que nunca saiu, diz que volta. Delúbio também. Todos continuam prontos para espanar a cadeira onde Lula pretende se sentar novamente em 2014. Afinal, a propaganda pode persuadir a maioria de que ele é o rei bom e que todas as ruindades ficaram por conta da rainha má. Esse é o enredo onde eles continuam.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
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Maria Lucia Victor Barbosa
13/02/2011
A propaganda é um ardiloso método que possibilita ir ao encontro da necessidade dos homens de serem enganados ou de se alienarem a um ídolo para o qual transferem suas supostas melhores qualidades. A criatura humana ama a mentira porque precisa de sonhos e os propagandistas sabem muito bem disso.
No caso específico dos políticos, se sua constante autoglorificação é tão velha quando o mundo e parece ultrapassar a dos demais indivíduos, não dispensam, contudo, a ajuda dos marqueteiros. Entretanto, prefiro como coloquei incialmente, usar com relação à política, a ajuda dos propagandistas, na medida em que propaganda objetiva difundir doutrinas e programas.
Foi a partir da Primeira Guerra Mundial que se deu o uso oficial da propaganda. Usada de forma sinistra, repugnante e mentirosa nos sistemas totalitários, comunista e nazista, não excluiu nos dias de hoje a manipulação das opiniões por um indivíduo ou grupo a fim de alcançar seus próprios fins. Transforma-se, assim, a propaganda numa tremenda arte de manipulação que induz pessoas a acreditarem no que não existe. Iludida, a maioria é conduzida para desfechos que lhes são traçados por vontades alheias à sua, sem sequer perceber o ardil.
Á partir da ajuda da propaganda o político constrói uma imagem na qual seleciona seus melhores traços, geralmente imaginários e plenos de narcisismo e, desse modo, se oferece para o culto de sua personalidade.
Foi desse modo que o raivoso Lula dos palanques, que manda exterminar partidos, adora ditadores quando lhe convém, mostra seu desgosto pela imprensa livre foi transformado para ganhar eleição no “Lulinha paz e amor”, de terno Armani, barba aparada, discurso adequado para não amedrontar capitalistas com a toada revolucionária da luta de classes. No poder Lula lembrou Mussolini que desejava “fazer da própria vida sua obra-prima”.
Lula logrou eleger sua sucessora e imediatamente a propaganda começou construir a imagem de Rousseff baseada na reclusão na qual ela parece se refugiar por, talvez, lhe faltar aquela tarimba política que faz a delícia das multidões, o raciocínio apto a responder de pronto ás perguntas de jornalistas e certo grau de bom humor para compensar a aspereza no trato. Mas, como num passe de mágica, a propaganda construiu para Rousseff a imagem idealizada de uma rainha distante, romanticamente resguardada em sua torre de marfim.
Apesar da propaganda, Rousseff começa seu “reinado” com grandes dificuldades oriundas do governo do qual participou, sendo que a mais grave de todas é a inflação que já galopa de modo descontrolado Em busca de continuidade, Lula acabou largando várias granadas sem pino no colo da sucessora.
Como explicou Celso Ming referindo-se ao recente pacote governamental do corte de R$ 50 bilhões, do qual muitos duvidam da eficácia: “Se agora fica admitida a necessidade de cortes, então fica também reconhecida a existência da inflação de demanda, provocada pela forte geração de renda que se seguiu à disparada do gasto público com fins eleitorais, que, por sua vez, gerou forte descompasso entre procura e oferta de bens e serviços” (O Estado de S. Paulo – 11/02/2011).
Rousseff, ex-ministra de Minas e Energia, tem à frente pesada herança maldita que inclui apagões que vêm acontecendo com frequência, sendo que o último atingiu no dia 4 deste mês oito Estados do Nordeste. A tendência é piorar enquanto os brasileiros pagam pela energia um dos preços mais altos do mundo.
Problemas seríssimos como o dos aeroportos, da Saúde, da Educação, da Copa do Mundo com orçamento já estourado e obras atrasadas, das Olimpíadas e muitos outros mais, todos herdados do governo Lula vão deixar a “rainha” cada vez mais enfurnada em seu castelo, restando-lhe o gênero clássico de apresentação na TV, a alocução, quando o governante monologa e se dirige diretamente aos telespectadores. O resultado geralmente é tedioso e medíocre como aconteceu com recente aparição de Rousseff.
Não há dúvida de que o atual governo tem a marca do continuísmo, apesar de já ter começado a inevitável comparação entre Lula e Rousseff. Note-se que os ministros mais importantes são os mesmos, reconduzidos por Lula que já voltou aos palanques e confirmou sua continuidade na festa de aniversário do PT ao dizer: “Eu apenas não estou no governo”. “Mas sou governo como qualquer companheiro que está no governo”. “Minha relação política com Dilma é indissociável nos bons e nos maus momentos”.
Os companheiros de governo que estavam na festa de 31 anos do PT para saudar seu presidente de honra e desagravar José Dirceu eram os mesmos “mensaleiros”, especialistas em dossiês, governadores e ministros, alguns com problemas na Justiça. José Dirceu, que nunca saiu, diz que volta. Delúbio também. Todos continuam prontos para espanar a cadeira onde Lula pretende se sentar novamente em 2014. Afinal, a propaganda pode persuadir a maioria de que ele é o rei bom e que todas as ruindades ficaram por conta da rainha má. Esse é o enredo onde eles continuam.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
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domingo, 30 de janeiro de 2011
OS BILONTRAS
Maria Lucia Victor Barbosa
Na sua obra, “Os Bestializados”, o historiador mineiro José Murilo de Carvalho volta aos primórdios da República para apresentar uma visão história, política e social cuja essência, no meu entender, se repete nos dias atuais.
A essência está no modo de ser bilontra ou tribofeiro, característica do brasileiro como um todo. Explicando melhor, na revista O Bilontra, citada por Carvalho e editada em 1886, por Artur Azevedo, esse tipo é o espertalhão, o velhaco, o gozador ou tribofeiro.
Em 1891, ainda conforme o autor citado, Artur Azevedo lança outra revista, O Tribofe, termo ligado à trapaça e que caracteriza a capital da República onde tribofeiros estavam por toda parte: “na política, na bolsa, no câmbio, na imprensa, no teatro, nos bondes, nos aluguéis e no amor”. “Como diria o próprio tribofe: ‘Ah, minha amiga, nesta boa terra os mandamentos da lei de Deus são como as posturas municipais, ninguém respeita”.
José Murilo mostra que no Brasil “normas legais e hierarquias sociais foram aos poucos se desmoralizando, constituindo-se em um mundo alternativo de relacionamentos e valores onde predominam o deboche, a irreverência, a malícia”.
Essa mentalidade com toque carnavalesco me parece perfeita para explicar o porquê da popularidade do ex-presidente Lula da Silva. O povo consagrou um rei bilontra com o qual se identificou, um monarca debochado, irreverente, malicioso, piadista, informal, populista, dotado de oratória tosca e tarimba adquirida em palanques de sindicatos, adepto do “deixa a vida me levar”.
Lula da Silva também é um homem de rara sorte. Escapou da origem simples e ingressou no mundo de poder e riqueza sempre apoiado por compadres e companheiros. Recebeu, ao chegar à presidência o para-casa pronto do governo anterior, coisa que espertamente seu partido chamou de “herança maldita”, mas que foi copiada e tocada para frente sob as facilidades do céu de brigadeiro da situação externa, até 2009, quando adveio a crise internacional que aqui foi alcunhada de “marolinha”, bem ao estilo gozador do “salvador da pátria”.
A propaganda intensificou trapaças que alteraram a visão de realidade da infraestrutura, da Educação, da Saúde. Criativamente truques contábeis foram utilizados pelo Tesouro. A corrupção governamental foi tida como normal. Os exorbitantes privilégios do “rei e da família real”, que contrastaram com a oratória do “pobre operário” não chocaram os bilontras que nas pesquisas afirmaram: “se eu estivesse lá faria a mesma coisa”.
Quando de novo as eleições chegaram, bilontras hipnotizados pela arenga do líder dirigiram-se às urnas e, obedientes, elegeram Dilma Rousseff. Era a maneira de manter Lula lá.
E Lula continuou. Remontou o ministério à sua imagem e semelhança, conversa com sua comandada diariamente, conforme a imprensa. Estrategicamente, porém, o ex-presidente não se expõe, sendo que a presidente é mostrada com bastante parcimônia.
O ocultamento da sucessora pode se dar por dois motivos: primeiro, esconder aquela certa dificuldade de raciocinar com fluência que era evidente durante a campanha. Segundo, tentar evitar ao máximo a vinculação da verdadeira herança maldita à presidente. Naturalmente, os marqueteiros dirão que a blindagem se deve a uma estratégia premeditada para construir uma imagem da própria Rousseff. Não precisava. Ela não é Lula.
A herança maldita não inclui somente a vergonhosa manutenção em nosso território do terrorista Cesare Battisti, a compra de aviões franceses, o valor do salário mínimo, a insatisfação do PMDB com a distribuição de cargos, as críticas à política externa brasileira que apoia regimes de déspotas violadores de direitos humanos. A herança maldita, que emblematicamente começou com a “tragédia das pedras” na região serrana do Rio, inclui o único fator que os bilontras são capazes de perceber, pois, se estão cada vez mais cínicos, corrompidos, indiferentes à imoralidade pública reinante, logo começarão a se ressentir e a se inquietar quando perceberem a inflação descontrolada que corrói seu poder aquisitivo.
Para eleger sua sucessora o governo Lula não mediu consequências e no último ano bateu recorde de gastos. Despesas do Tesouro, INSS e Banco Central, que em 2003 representavam 15,14% do PIB, atingiram 19,14% oito anos depois. A escalada de gastos públicos continua e dificultará o trabalho do Banco Central para conter a inflação. Contudo, quando o relatório oficial do Fundo Monetário Internacional (FMI) denunciou a deterioração das contas públicas brasileiras, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se limitou a ironizar de forma grosseira e arrogante dizendo: “Acho que o diretor-gerente (Dominique Strauss Kahn) saiu de férias e algum velho ortodoxo deve ter escrito esse relatório com essas bobagens sobre o Brasil”.
Ainda é cedo para julgar o governo Rousseff, mas pelo andar da carruagem, quando o ano começar depois do carnaval, os bilontras saberão se é bobagem ou não a escalada inflacionária.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
Maria Lucia Victor Barbosa
Na sua obra, “Os Bestializados”, o historiador mineiro José Murilo de Carvalho volta aos primórdios da República para apresentar uma visão história, política e social cuja essência, no meu entender, se repete nos dias atuais.
A essência está no modo de ser bilontra ou tribofeiro, característica do brasileiro como um todo. Explicando melhor, na revista O Bilontra, citada por Carvalho e editada em 1886, por Artur Azevedo, esse tipo é o espertalhão, o velhaco, o gozador ou tribofeiro.
Em 1891, ainda conforme o autor citado, Artur Azevedo lança outra revista, O Tribofe, termo ligado à trapaça e que caracteriza a capital da República onde tribofeiros estavam por toda parte: “na política, na bolsa, no câmbio, na imprensa, no teatro, nos bondes, nos aluguéis e no amor”. “Como diria o próprio tribofe: ‘Ah, minha amiga, nesta boa terra os mandamentos da lei de Deus são como as posturas municipais, ninguém respeita”.
José Murilo mostra que no Brasil “normas legais e hierarquias sociais foram aos poucos se desmoralizando, constituindo-se em um mundo alternativo de relacionamentos e valores onde predominam o deboche, a irreverência, a malícia”.
Essa mentalidade com toque carnavalesco me parece perfeita para explicar o porquê da popularidade do ex-presidente Lula da Silva. O povo consagrou um rei bilontra com o qual se identificou, um monarca debochado, irreverente, malicioso, piadista, informal, populista, dotado de oratória tosca e tarimba adquirida em palanques de sindicatos, adepto do “deixa a vida me levar”.
Lula da Silva também é um homem de rara sorte. Escapou da origem simples e ingressou no mundo de poder e riqueza sempre apoiado por compadres e companheiros. Recebeu, ao chegar à presidência o para-casa pronto do governo anterior, coisa que espertamente seu partido chamou de “herança maldita”, mas que foi copiada e tocada para frente sob as facilidades do céu de brigadeiro da situação externa, até 2009, quando adveio a crise internacional que aqui foi alcunhada de “marolinha”, bem ao estilo gozador do “salvador da pátria”.
A propaganda intensificou trapaças que alteraram a visão de realidade da infraestrutura, da Educação, da Saúde. Criativamente truques contábeis foram utilizados pelo Tesouro. A corrupção governamental foi tida como normal. Os exorbitantes privilégios do “rei e da família real”, que contrastaram com a oratória do “pobre operário” não chocaram os bilontras que nas pesquisas afirmaram: “se eu estivesse lá faria a mesma coisa”.
Quando de novo as eleições chegaram, bilontras hipnotizados pela arenga do líder dirigiram-se às urnas e, obedientes, elegeram Dilma Rousseff. Era a maneira de manter Lula lá.
E Lula continuou. Remontou o ministério à sua imagem e semelhança, conversa com sua comandada diariamente, conforme a imprensa. Estrategicamente, porém, o ex-presidente não se expõe, sendo que a presidente é mostrada com bastante parcimônia.
O ocultamento da sucessora pode se dar por dois motivos: primeiro, esconder aquela certa dificuldade de raciocinar com fluência que era evidente durante a campanha. Segundo, tentar evitar ao máximo a vinculação da verdadeira herança maldita à presidente. Naturalmente, os marqueteiros dirão que a blindagem se deve a uma estratégia premeditada para construir uma imagem da própria Rousseff. Não precisava. Ela não é Lula.
A herança maldita não inclui somente a vergonhosa manutenção em nosso território do terrorista Cesare Battisti, a compra de aviões franceses, o valor do salário mínimo, a insatisfação do PMDB com a distribuição de cargos, as críticas à política externa brasileira que apoia regimes de déspotas violadores de direitos humanos. A herança maldita, que emblematicamente começou com a “tragédia das pedras” na região serrana do Rio, inclui o único fator que os bilontras são capazes de perceber, pois, se estão cada vez mais cínicos, corrompidos, indiferentes à imoralidade pública reinante, logo começarão a se ressentir e a se inquietar quando perceberem a inflação descontrolada que corrói seu poder aquisitivo.
Para eleger sua sucessora o governo Lula não mediu consequências e no último ano bateu recorde de gastos. Despesas do Tesouro, INSS e Banco Central, que em 2003 representavam 15,14% do PIB, atingiram 19,14% oito anos depois. A escalada de gastos públicos continua e dificultará o trabalho do Banco Central para conter a inflação. Contudo, quando o relatório oficial do Fundo Monetário Internacional (FMI) denunciou a deterioração das contas públicas brasileiras, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se limitou a ironizar de forma grosseira e arrogante dizendo: “Acho que o diretor-gerente (Dominique Strauss Kahn) saiu de férias e algum velho ortodoxo deve ter escrito esse relatório com essas bobagens sobre o Brasil”.
Ainda é cedo para julgar o governo Rousseff, mas pelo andar da carruagem, quando o ano começar depois do carnaval, os bilontras saberão se é bobagem ou não a escalada inflacionária.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
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