SOMOS TODOS LIBERTINOS
Maria Lucia Victor Barbosa
20/09/2009
Dizer que somos todos libertinos, isso é, livres de qualquer peia moral, devassos, dissolutos, depravados, licenciosos, pode parecer ofensivo. Digamos, então, que existem graus de libertinagem conforme a época e a sociedade. Por exemplo, o Império Romano em sua decadência foi extremamente devasso.
Quanto ao Brasil, se comparado a outros países, já nasceu dissoluto. Que se rememore a exploração e a colonização do gigantesco território feito de modo ganancioso e desleixado. Daquela “embriogenia defeituosa” moldou-se nossa maneira de ser, nossa visão de mundo, nossa mentalidade do “rouba, mas faz”, do “levar vantagem em tudo”, do “se eu estivesse lá faria o mesmo”. Desde o início a plasticidade de costumes, o oceano imenso entre os colonizadores e a matriz de costumes mais rígidos. Nas imensidões a serem desbravadas logo se aprendeu que não “existe pecado do lado debaixo do Equador”. E na simulação de uma moral inexistente nos movemos desde os primórdios na mentira que trespassou nossas instituições políticas, econômicas e se entranhou profundamente no tecido social.
É certo que todos os povos mentem. Que em todas as nações a mentira é uma das técnicas mais apuradas de conquista de poder e que a humanidade como um todo se compraz na mentira porque precisa de ilusão, de guias mentirosos, de falsas metas utópicas. Mas, também é certo que em certos países os poderes constituídos são mais respeitados, que suas atividades econômicas costumam se processar em níveis mais leais que nossas costumeiras práticas corruptas, que a confiança mútua é mais generalizada.
Isso, é claro, não produz santos, apenas indivíduos menos libertinos, porque em tais contextos sociais existe o funcionamento mais adequado da lei. Justamente a expectativa de que leis vão ser cumpridas constitui a melhor advertência para que libertinos pensem duas vezes antes de infringi-las.
Nós somos sabidamente o país da impunidade. Nossa Justiça é morosa. Exemplos dados pelo Judiciário nem sempre são dignificantes. Estamos longe da isonomia capaz de fazer justiça. Nossa Constituição pode entrar para o livro dos recordes tal a profusão de leis que contém em contraste com seu pífio cumprimento.
Entretanto, conforme o pensamento de Thomas Hobbes, em O Leviatã, poucas e boas leis são necessárias para o bem do povo. Esse filósofo político, diferente de Aristóteles para o qual o homem era naturalmente sociável, naturalmente cidadão (zoon politikon, animal político) pensava que a natureza não colocou no homem o instinto de sociabilidade, pois “o homem só procura companheiros por interesse ou necessidade”. Deriva daí a importância de um poder comum, ou seja, do Estado como gerador das leis e, portanto, capaz de assegurar a segurança e a paz.
Entende-se a partir daí a importância dos Poderes Legislativo e Judiciário, que compõem com o Executivo o tripé do Estado Democrático de Direito. O problema em nosso país é o funcionamento desses Poderes, na medida em que o Legislativo e o Judiciário sempre foram a reboque de um Executivo excessivamente centralizador.
No momento a centralização se acentua. O Congresso Nacional, sobretudo, a Câmara, se submete aos desejos presidenciais. E o Judiciário está passando por mais um teste crucial de credibilidade em sua instância mais alta, o Supremo Tribunal Federal.
Para pertencer ao STF é necessário ser brasileiro nato, ter mais de 35 anos, exibir notável saber jurídico e apresentar reputação ilibada. O candidato a ministro é indicado pelo presidente da República e o Senado pode aceitá-lo ou não.
Pois bem, com a vaga deixada pelo ministro Carlos Alberto Direito, que faleceu recentemente, o presidente Lula da Silva indicou para preenchê-la o advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli. Reprovado duas vezes em concurso para juiz estadual, o notório saber do companheiro se resume a ter sido advogado do PT e amigo de poderosos petistas tais como José Dirceu, algo capaz de abrir portas que costumam estar fechadas para “pessoas comuns”. Contudo, coisa mais grave, Toffoli foi condenado em dois processos que correm em primeira instância no Estado do Amapá. Se o Senado aceitar a indicação presidencial como sempre ocorre e os processos de Toffoli chegarem ao STF com ele lá, como é que fica?
Note-se que para o Executivo e o Legislativo não existe o critério de reputação ilibada, o que é pena. Mas se há para o Judiciário, como pode o presidente da República indicar para tão elevado cargo alguém sobre cuja reputação paira dúvidas relativas à prática de atos imorais e ilícitos?
Isso não tem problema. Afinal, se a maioria pudesse faria o mesmo que o companheiro Toffoli fez no Amapá. E se a entrada do jovem advogado-geral da União acabar de vez com o que resta de credibilidade no STF, aqueles poucos que disso tomarem conhecimento darão de ombros. No Brasil o direito de ser libertino é assegurado. Os companheiros do PT que o digam.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga
mlucia@sercomtel.com.br
www.maluvibar.blogspot.com
domingo, 20 de setembro de 2009
sábado, 12 de setembro de 2009
11 DE SETEMBRO DE 2001
Maria Lucia Victor Barbosa
12/09/2009
O tempo que parece passar cada vez mais rápido, escapando pelas frestas da vida nessa nossa era da pressa, deixou para trás, esmaecido na memória, o brutal ataque às torres do World Trade Center de Nova York e aos prédios do Pentágono, símbolos do poder financeiro e estratégico-militar dos Estados Unidos.
O hediondo atentado que vitimou centenas de norte-americanos, de estrangeiros, inclusive, de alguns brasileiros, foi arquitetado por Osama Bin Laden, inimigo número 1 dos Estados Unidos e quintessência do “islamismo mais enlouquecido” na expressão de Giles Lapouge. Cabeça do terrorismo mundial, Bin Laden exultou quando sua coreografia perfeita do horror foi assistida pelo mundo estarrecido. E esta figura sinistra continua a destilar peçonha onde a rede terrorista Al Qaeda estende seus tentáculos.
Viver com medo é tornar-se escravo e foi essa escravidão psicológica que Bin Laden, misto de fanático e psicopata, prometeu aos Estados Unidos depois de ter assumido a autoria dos atentados. Algo que pode ser mais bem entendido a partir do brilhante ensaio de Friedrich Nietzche sobre o ressentimento a significar a desforra dos “escravos morais”, ou seja, dos desprivilegiados em dotes naturais ou oportunidades de vida contra o que consideram como privilegiados. Em suma, a vingança dos recalcados.
A teoria de Nietzsche traduz o lado psicológico da teoria da luta de classes de Karl Marx. Isto porque, se indivíduos “explorados” nos primórdios do capitalismo industrial obtiveram melhorias sociais, não através da “ditadura do proletariado”, mas sim através de conquistas da classe operária, hoje “escravos morais” que ideologicamente se posicionam como sendo de esquerda são movidos pelo recalque diante do êxito alheio, fenômeno muito comum na América Latina perante os Estados Unidos.
A teoria que analisa o recalque, a intrínseca inveja humana, mais conhecida entre nós como “complexo de vira-lata”, é frequentemente demonstrada pela esquerda brasileira composta não pelo operariado, mas pela “pequena burguesia” onde se incluem estudantes, intelectuais, artistas, profissionais liberais e outras camadas sociais inseridas nas classes médias. Isto explica porque diante do monstruoso atentado um grupo de brasileiros entusiasmados saudou “Osama nas alturas” e se deliciou repassando um vídeo onde o choque dos aviões nas torres do World Center era repetido.
Contraditoriamente, os socialistas tropicais, que chegaram a culpar o “Grande Satã Branco” pelo brutal atentado ao seu próprio povo, nunca deixaram de viajar aos Estados Unidos para estudar, tratar da saúde, fazer turismo ou mesmo ficar por lá em busca de uma vida melhor.
Para fins ideológicos, porém, os “escravos morais” cultuam figuras abomináveis que possuem o mesmo tipo de “ódio sagrado” aos norte-americanos, como é o caso de Mahmoud Ahmadinejad, que por tabela prega a destruição de Israel e nega o Holocausto.
Enquanto isso, Hugo Chávez, ditador de fato da Venezuela e também possuído pelo “ódio sagrado” aos Estados Unidos, depois de sua oitava viagem ao Irã declarou que reconhece o direito dos iranianos de desenvolver tecnologia nuclear e mencionou a construção na Venezuela de uma “zona nuclear” ou “cidade nuclear” com ajuda iraniana. Essas declarações, naturalmente, levam ao delírio seus fiéis seguidores, os socialistas do século 21, especialmente o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa.
O Brasil não se manifesta diante do pacto de Chávez com o Irã. Mesmo porque, Lula da Silva considera Chávez um democrata e espera Ahmadinejad de braços abertos, caso este resolva tentar de novo visitar o Brasil.
Há quem diga que terroristas habitam bem próximos de nós, ou mesmo que já estão em nosso meio, coisa que faz o gosto da esquerda tupiniquim, a mesma que defende Cesare Battisti, os países que desrespeitam os direitos humanos, as Farc, o MST, enfim, tudo que gera violência e ameaça a pessoas indefesas.
De todo modo, naquele já longínquo 11/09/2001, se símbolos do poder norte-americano foram atingidos, a Estátua da Liberdade permaneceu de pé. Em meio à tragédia isso foi um bom sinal. Traduziu a esperança de que podem vencer os que defendem a liberdade, a democracia, a prosperidade e não os recalcados do fanatismo, do terror, do desrespeito à vida.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga
mlucia@sercomtel.com.br
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Maria Lucia Victor Barbosa
12/09/2009
O tempo que parece passar cada vez mais rápido, escapando pelas frestas da vida nessa nossa era da pressa, deixou para trás, esmaecido na memória, o brutal ataque às torres do World Trade Center de Nova York e aos prédios do Pentágono, símbolos do poder financeiro e estratégico-militar dos Estados Unidos.
O hediondo atentado que vitimou centenas de norte-americanos, de estrangeiros, inclusive, de alguns brasileiros, foi arquitetado por Osama Bin Laden, inimigo número 1 dos Estados Unidos e quintessência do “islamismo mais enlouquecido” na expressão de Giles Lapouge. Cabeça do terrorismo mundial, Bin Laden exultou quando sua coreografia perfeita do horror foi assistida pelo mundo estarrecido. E esta figura sinistra continua a destilar peçonha onde a rede terrorista Al Qaeda estende seus tentáculos.
Viver com medo é tornar-se escravo e foi essa escravidão psicológica que Bin Laden, misto de fanático e psicopata, prometeu aos Estados Unidos depois de ter assumido a autoria dos atentados. Algo que pode ser mais bem entendido a partir do brilhante ensaio de Friedrich Nietzche sobre o ressentimento a significar a desforra dos “escravos morais”, ou seja, dos desprivilegiados em dotes naturais ou oportunidades de vida contra o que consideram como privilegiados. Em suma, a vingança dos recalcados.
A teoria de Nietzsche traduz o lado psicológico da teoria da luta de classes de Karl Marx. Isto porque, se indivíduos “explorados” nos primórdios do capitalismo industrial obtiveram melhorias sociais, não através da “ditadura do proletariado”, mas sim através de conquistas da classe operária, hoje “escravos morais” que ideologicamente se posicionam como sendo de esquerda são movidos pelo recalque diante do êxito alheio, fenômeno muito comum na América Latina perante os Estados Unidos.
A teoria que analisa o recalque, a intrínseca inveja humana, mais conhecida entre nós como “complexo de vira-lata”, é frequentemente demonstrada pela esquerda brasileira composta não pelo operariado, mas pela “pequena burguesia” onde se incluem estudantes, intelectuais, artistas, profissionais liberais e outras camadas sociais inseridas nas classes médias. Isto explica porque diante do monstruoso atentado um grupo de brasileiros entusiasmados saudou “Osama nas alturas” e se deliciou repassando um vídeo onde o choque dos aviões nas torres do World Center era repetido.
Contraditoriamente, os socialistas tropicais, que chegaram a culpar o “Grande Satã Branco” pelo brutal atentado ao seu próprio povo, nunca deixaram de viajar aos Estados Unidos para estudar, tratar da saúde, fazer turismo ou mesmo ficar por lá em busca de uma vida melhor.
Para fins ideológicos, porém, os “escravos morais” cultuam figuras abomináveis que possuem o mesmo tipo de “ódio sagrado” aos norte-americanos, como é o caso de Mahmoud Ahmadinejad, que por tabela prega a destruição de Israel e nega o Holocausto.
Enquanto isso, Hugo Chávez, ditador de fato da Venezuela e também possuído pelo “ódio sagrado” aos Estados Unidos, depois de sua oitava viagem ao Irã declarou que reconhece o direito dos iranianos de desenvolver tecnologia nuclear e mencionou a construção na Venezuela de uma “zona nuclear” ou “cidade nuclear” com ajuda iraniana. Essas declarações, naturalmente, levam ao delírio seus fiéis seguidores, os socialistas do século 21, especialmente o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa.
O Brasil não se manifesta diante do pacto de Chávez com o Irã. Mesmo porque, Lula da Silva considera Chávez um democrata e espera Ahmadinejad de braços abertos, caso este resolva tentar de novo visitar o Brasil.
Há quem diga que terroristas habitam bem próximos de nós, ou mesmo que já estão em nosso meio, coisa que faz o gosto da esquerda tupiniquim, a mesma que defende Cesare Battisti, os países que desrespeitam os direitos humanos, as Farc, o MST, enfim, tudo que gera violência e ameaça a pessoas indefesas.
De todo modo, naquele já longínquo 11/09/2001, se símbolos do poder norte-americano foram atingidos, a Estátua da Liberdade permaneceu de pé. Em meio à tragédia isso foi um bom sinal. Traduziu a esperança de que podem vencer os que defendem a liberdade, a democracia, a prosperidade e não os recalcados do fanatismo, do terror, do desrespeito à vida.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga
mlucia@sercomtel.com.br
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sábado, 5 de setembro de 2009
BRASIL DESFIBRADO
Maria Lucia Victor Barbosa
05/09/2009
Por conta de nossa formação histórica nunca tivemos uma mentalidade onde sobressaíssem valores que caracterizam certos povos. Quando a enorme colônia portuguesa foi dividida em capitanias hereditárias iniciou-se mais que uma divisão territorial uma cultura, cujos traços mais evidentes foram o individualismo, o autoritarismo, o patrimonialismo, o anticapitalismo.
Formaram-se naquelas sociedades dispersas traços culturais traduzidos em valores, atitudes, costumes, usos, tradições e comportamentos. Era uma maneira de ser, uma visão de mundo que definitivamente não incluía o sentido de pátria, nem o de espírito público, nem o de bem comum. No Brasil que aos poucos ia se moldando imperavam famílias patriarcais, em torno de cada uma gravitava um complexo clânico e uma massa de dependentes. Todos dependiam do senhor patriarcal e este foi a origem do poder personalizado que até hoje se cultua no Brasil. Dentro de suas circunstâncias este senhor subordinou os interesses gerais aos seu interesses particulares, exatamente o contrário do que existiu na formação de sociedades democráticas. Assim, desde o início, gerou-se no Brasil a sociedade desigual, onde a família e a clientela daquele senhor todo-poderoso se acomodaram de maneira passiva na dependência de um “pai” armado de castigo e recompensa.
Um longo estudo de nossa história seria impossível num pequeno artigo. Esse vôo mais longo eu tentei em um de meus livros, “América Latina – Em Busca do Paraíso Perdido”. Mas apenas como entendimento do presente a partir do passado, recordo que com a vinda da corte portuguesa, em 1808, instalaram-se de uma vez por todas no Brasil as características do velho Estado português. Como escreveu Raymundo Faoro em “Os Donos do Poder”: “os reis portugueses governaram o reino como a própria casa, não distinguindo o tesouro pessoal do patrimônio público”. E o Estado brasileiro nasceu também corrupto na medida em que para tudo se dependia dele, do seu excessivo quadro de funcionários, da morosidade típica do burocrata, correndo soltas as propinas para aligeirar licenças, fornecimentos, processos, despachos, etc. Em toda parte do desajeitado e ineficiente leviatã traficavam-se influências, negociava-se a coisa pública em proveito próprio.
Não se pode negar que o Brasil, em que pese manter seus contrastes regionais, suas disparidades de classes, em grande parte modernizou-se através de um processo de urbanização e industrialização. Estratos modernos se concentraram em centros urbanos mais adiantados, notadamente em São Paulo. Esse progresso, inclusive, provoca temor aos nossos vizinhos sul-americanos que nos vêem como imperialistas. Entretanto, persiste no país a mentalidade inicial, com agravantes que fazem parte da era de mediocridade, de vulgaridade, de ausência de valores, de decadência moral, intelectual e artísticas, traços que marcam a humanidade como um todo em que pese os grandes avanços científicos e tecnológicos alcançados no mundo de agora.
Impressiona observar um Brasil desfibrado nas cenas que se desenrolam no presente. Se sempre houve um poder centralizador, que a partir do Executivo subordinava o Legislativo e o Judiciário, o atual governo, “pai” armado de castigo e recompensa, interfere conforme seus interesses pessoais de poder no Congresso onde uma Câmara subalterna só faz o que seu “chefe” mandar. Se no Senado reside alguma oposição, posta em foco recentemente a figura de seu presidente lembrou tempos patriarcais, complexos clânicos, clientelas, abuso de poder, algo que como apontou José Sarney, não difere do comportamento da maioria de seus pares. Já o Judiciário, incluindo sua instância mais alta, segue a tradição da impunidade que premia os poderosos, percorre a trilha ilustrada pelo antigo ditado que se dizia nas colônias espanholas: “La ley se acata pero no se cumple. Sem medo de ser feliz, Antonio Palocci é alçado a candidato enquanto o caseiro mergulha nas trevas do esquecimento e das dificuldades.
Sem lei ficam desprotegidas as pessoas comuns, avança o estado de anarquia, fenece o Estado Democrático de Direito, deturpa-se a democracia, acentua-se o vale tudo da política onde apenas interessa o poder pelo poder. Quanto ao povo convertido em plebe é apenas mansa massa de manobra, anestesiada, tangida pela propaganda enganosa, pelo populismo, pelas ilusões do teatro de torpezas em que a política se aprofunda.
Já não se distingue mais quem comanda a Nação, se bandidos ou mocinhos, se narcotraficantes ou instituições e, significativamente, quando o presidente da República posa para a posteridade com um colar de folhas de coca e abraçado com um representante do “socialismo do século 21”, chega-se à triste conclusão de que fazemos parte de um Brasil desfibrado. Pior, desfibrado por nossa complacência, por nossa aquiescência, por nossa cumplicidade. Não é emblemático que o povo fique sempre do lado dos bandidos e não dos policiais?
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga
mlucia@sercomtel.com.br www.maluvibar.blogspot.com
Maria Lucia Victor Barbosa
05/09/2009
Por conta de nossa formação histórica nunca tivemos uma mentalidade onde sobressaíssem valores que caracterizam certos povos. Quando a enorme colônia portuguesa foi dividida em capitanias hereditárias iniciou-se mais que uma divisão territorial uma cultura, cujos traços mais evidentes foram o individualismo, o autoritarismo, o patrimonialismo, o anticapitalismo.
Formaram-se naquelas sociedades dispersas traços culturais traduzidos em valores, atitudes, costumes, usos, tradições e comportamentos. Era uma maneira de ser, uma visão de mundo que definitivamente não incluía o sentido de pátria, nem o de espírito público, nem o de bem comum. No Brasil que aos poucos ia se moldando imperavam famílias patriarcais, em torno de cada uma gravitava um complexo clânico e uma massa de dependentes. Todos dependiam do senhor patriarcal e este foi a origem do poder personalizado que até hoje se cultua no Brasil. Dentro de suas circunstâncias este senhor subordinou os interesses gerais aos seu interesses particulares, exatamente o contrário do que existiu na formação de sociedades democráticas. Assim, desde o início, gerou-se no Brasil a sociedade desigual, onde a família e a clientela daquele senhor todo-poderoso se acomodaram de maneira passiva na dependência de um “pai” armado de castigo e recompensa.
Um longo estudo de nossa história seria impossível num pequeno artigo. Esse vôo mais longo eu tentei em um de meus livros, “América Latina – Em Busca do Paraíso Perdido”. Mas apenas como entendimento do presente a partir do passado, recordo que com a vinda da corte portuguesa, em 1808, instalaram-se de uma vez por todas no Brasil as características do velho Estado português. Como escreveu Raymundo Faoro em “Os Donos do Poder”: “os reis portugueses governaram o reino como a própria casa, não distinguindo o tesouro pessoal do patrimônio público”. E o Estado brasileiro nasceu também corrupto na medida em que para tudo se dependia dele, do seu excessivo quadro de funcionários, da morosidade típica do burocrata, correndo soltas as propinas para aligeirar licenças, fornecimentos, processos, despachos, etc. Em toda parte do desajeitado e ineficiente leviatã traficavam-se influências, negociava-se a coisa pública em proveito próprio.
Não se pode negar que o Brasil, em que pese manter seus contrastes regionais, suas disparidades de classes, em grande parte modernizou-se através de um processo de urbanização e industrialização. Estratos modernos se concentraram em centros urbanos mais adiantados, notadamente em São Paulo. Esse progresso, inclusive, provoca temor aos nossos vizinhos sul-americanos que nos vêem como imperialistas. Entretanto, persiste no país a mentalidade inicial, com agravantes que fazem parte da era de mediocridade, de vulgaridade, de ausência de valores, de decadência moral, intelectual e artísticas, traços que marcam a humanidade como um todo em que pese os grandes avanços científicos e tecnológicos alcançados no mundo de agora.
Impressiona observar um Brasil desfibrado nas cenas que se desenrolam no presente. Se sempre houve um poder centralizador, que a partir do Executivo subordinava o Legislativo e o Judiciário, o atual governo, “pai” armado de castigo e recompensa, interfere conforme seus interesses pessoais de poder no Congresso onde uma Câmara subalterna só faz o que seu “chefe” mandar. Se no Senado reside alguma oposição, posta em foco recentemente a figura de seu presidente lembrou tempos patriarcais, complexos clânicos, clientelas, abuso de poder, algo que como apontou José Sarney, não difere do comportamento da maioria de seus pares. Já o Judiciário, incluindo sua instância mais alta, segue a tradição da impunidade que premia os poderosos, percorre a trilha ilustrada pelo antigo ditado que se dizia nas colônias espanholas: “La ley se acata pero no se cumple. Sem medo de ser feliz, Antonio Palocci é alçado a candidato enquanto o caseiro mergulha nas trevas do esquecimento e das dificuldades.
Sem lei ficam desprotegidas as pessoas comuns, avança o estado de anarquia, fenece o Estado Democrático de Direito, deturpa-se a democracia, acentua-se o vale tudo da política onde apenas interessa o poder pelo poder. Quanto ao povo convertido em plebe é apenas mansa massa de manobra, anestesiada, tangida pela propaganda enganosa, pelo populismo, pelas ilusões do teatro de torpezas em que a política se aprofunda.
Já não se distingue mais quem comanda a Nação, se bandidos ou mocinhos, se narcotraficantes ou instituições e, significativamente, quando o presidente da República posa para a posteridade com um colar de folhas de coca e abraçado com um representante do “socialismo do século 21”, chega-se à triste conclusão de que fazemos parte de um Brasil desfibrado. Pior, desfibrado por nossa complacência, por nossa aquiescência, por nossa cumplicidade. Não é emblemático que o povo fique sempre do lado dos bandidos e não dos policiais?
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga
mlucia@sercomtel.com.br www.maluvibar.blogspot.com
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
PORTO INSEGURO
MARIA LUCIA VICTOR
Do meu caminho entendo eu.
Meu norte traço a bico de pena
e no vôo das águias
que ao pôr-do-sol descambam
nos azuis do mar ao anoitecer.
Sigo minha estrada de asperezas,
tentando afastar as rochas brutas
das incertezas enquanto pântanos
traiçoeiros me acenam seus perigos.
Só nuvens guiam meu trajeto
e nele me perco de quando em vez,
pois sou humana.
Aqui e ali faço crescer
tímidas violetas
cor de Sexta-feira Santa,
incertas na beleza,
quase mortas,
ainda assim, flores.
Às vezes planto rosas,
que em rubro esplendor
explodem quais sóis fugazes
para depois morrerem
mais como pesares
do que como alegrias desabrochadas
em campos de esperança.
Trago comigo uma bússola
que só eu conheço
e com ela persigo
as veredas do destino,
mas sou traída
pelos sentidos e me afogo
nas areias inclementes do deserto
por onde ando.
Prossigo de qualquer jeito.
Nas trilhas das crenças indefinidas,
tanto posso dar no mar
quanto nas estrelas,
mas não há faróis nem guias.
Peço, então, a não sei qual
divindade benfazeja,
mãos postas diante
do fogo sagrado das paixões,
que me faça chegar por fim
a um porto mesmo que inseguro
onde eu possa crer
ainda que sem certeza.
MARIA LUCIA VICTOR
Do meu caminho entendo eu.
Meu norte traço a bico de pena
e no vôo das águias
que ao pôr-do-sol descambam
nos azuis do mar ao anoitecer.
Sigo minha estrada de asperezas,
tentando afastar as rochas brutas
das incertezas enquanto pântanos
traiçoeiros me acenam seus perigos.
Só nuvens guiam meu trajeto
e nele me perco de quando em vez,
pois sou humana.
Aqui e ali faço crescer
tímidas violetas
cor de Sexta-feira Santa,
incertas na beleza,
quase mortas,
ainda assim, flores.
Às vezes planto rosas,
que em rubro esplendor
explodem quais sóis fugazes
para depois morrerem
mais como pesares
do que como alegrias desabrochadas
em campos de esperança.
Trago comigo uma bússola
que só eu conheço
e com ela persigo
as veredas do destino,
mas sou traída
pelos sentidos e me afogo
nas areias inclementes do deserto
por onde ando.
Prossigo de qualquer jeito.
Nas trilhas das crenças indefinidas,
tanto posso dar no mar
quanto nas estrelas,
mas não há faróis nem guias.
Peço, então, a não sei qual
divindade benfazeja,
mãos postas diante
do fogo sagrado das paixões,
que me faça chegar por fim
a um porto mesmo que inseguro
onde eu possa crer
ainda que sem certeza.
ENTREVISTA COM KARL MARX
Maria Lucia Victor Barbosa
Finalmente ele aceitou meu convite para uma entrevista. Eu mal podia acreditar. Estaria frente a frente com o homem que teve o mérito de desvendar aspectos novos da sociedade, apesar da inexatidão científica de suas profecias ou da dose de utopia e de messianismo contidos em sua obra. Mas seja lá como for o monumental pensamento de Karl Marx havia povoado minha juventude com sonhos revolucionários de um romantismo inigualável.
Assim sendo, meu coração batia de ansiedade enquanto me dirigia para o lugar do encontro. Ele determinara que o local fosse num dos mais belos shoppings centers de São Paulo, o Higienópolis, verdadeiro templo do consumo desvairado. Como desobedecer? Para completar tamanha excentricidade, o alemão barbudo exigira ser entrevistado enquanto tomássemos lanche no McDonald’s, o que estranhei bastante. Aliás, fiquei imaginando o que diria se nos visse o filósofo e baderneiro francês José Bové, produtor de queijos de cabra que estudou em Harvard, e que nas horas vagas faz protestos contra os Estados Unidos, homem cuja birra aos lanches do McDonald’s acabou por conduzi-lo ao estrelato em 2001 num encontro anti-Davos, palco petista de Porto Alegre onde, ao que parece, foram proibidos hambúrgueres e servido todo dia um prato de indigesta salada russa. Não apurei na ocasião se o cardápio continha ou não produtos transgênicos.
Pois é, se Marx queria ir ao símbolo diabólico do capitalismo quem era eu para contrariar sua vontade? Então, na hora combinada postei-me na entrada da maldita lanchonete em meio a uma democrática e pequena multidão de anônimos comilões de sanduíches, formada por jovens da periferia e de pessoas da classe média que se distinguem, como se sabe, pelo terrível vício de ingerir coca-cola, outro demoníaco produto que mantém o Terceiro Mundo açucarado e alienado aos apelos gastronômicos do imperialismo.
Depois de quarenta minutos de atraso, que me angustiaram por uma eternidade, ele surgiu como o russo Anienkof o descrevera. Sua cabeça parecia a de um leão de basta cabeleira grisalha, as mãos cobertas de pêlos, as maneiras desajeitadas, todavia orgulhosas, arrogantes e autoritárias que sem dúvida ficaram como legado para muitos dos seus seguidores. Todo esse aspecto conferia com o que eu esperava ver, menos o traje. Em vez da roupa desalinhada e preta Marx vestia uma camiseta branca “dry fit” e ostentava calça jeans de griffe. Nos pés, botas, à moda Bush e Fox.
No que chegou me ordenou com sua voz metálica e vibrante feita para emitir juízos radicais sobre os homens e as coisas, para pronunciar palavras imperativas: “A senhora me pega um big mac com fritas e uma coca de 500 ml que na seca não vou falar nada”. Obediente, fui até a fila para adquirir o lanche, enquanto o majestoso Karl Marx se aboletava numa mesinha da praça de alimentação acomodando suas sacolas de compras na cadeira vaga. Tudo nos conformes, eu com meu queijo quarteirão e meu guaraná bem brasileiro desferi a primeira pergunta com voz trêmula:
ML: Aonde e em que ano o senhor nasceu? Marx: Em Tréves, em 1818. ML: Gostaria de falar sobre seus pais? Marx: Preferia não falar. Meu pai era um advogado judeu convertido ao luteranismo que queria que eu seguisse a carreira jurídica para a qual não tinha vocação. Ele implicava com meu gosto pela poesia. Dizia que não me queria ver transformado num poetinha qualquer. Minha mãe vivia me dizendo que em vez de ficar escrevendo o Capital eu devia conseguir algum para mim. Ambos me aborreciam com seus sermões sobre minha vida boêmia em Bonn, quando eu, ainda jovem, gastava um dinheirão e tomava pileques homéricos. Achava-os muito burgueses. Hoje entendo que as mães têm sempre razão. ML: O senhor teve um grande amigo, Engels. Marx: De fato, Engels muito me ajudou. Fez vários artigos que eu assinava quando escrevia no New York Daily Tribune, escreveu obras comigo, me auxiliou financeiramente inúmeras vezes. Um amigão sem o qual teria morrido de fome com minha família, e que andei depois escorraçando, mas no final nos entendemos apesar dele ter ficado muito magoado. ML: E sua esposa? Marx: Chamava-se Jenny von Westphalen e era de família nobre. Uma santa. Suportou nossa vida miserável porque eu não trabalhava, sem se queixar. Dois de nossos filhos e uma filha morreram porque eu não tinha recursos para tratá-los, e a Jenny agüentou firme. ML: Mas esse devotamento de Jenny não o impediu de ter uma filha com a governanta Helena. Marx: Prefiro não falar sobre o assunto. ML: Então me fale sobre suas idéias. Resuma seu pensamento sobre religião. Marx: a religião é o ópio do povo e eu sou materialista. ML: O senhor dizia que a colonização dos países do Terceiro Mundo era a condição fundamental para a criação do capitalismo de onde sairia um proletariado revolucionário, continua achando isso? Marx: Como sabe a professora a teoria na prática é outra. Assim, deu tudo errado. Previ o capitalismo plenamente desenvolvido para a Alemanha e a Inglaterra, saiu na Rússia e aí, danou-se. Quanto ao capitalismo dos “boas vidas” é um arremedo, seu projeto de socialismo possui teor medieval, não têm propostas concretas e suas revoluções só servem para que tiranetes se locupletem no poder. Estou desencantado. Para culminar o capitalismo vive superando suas crises e se tornou algo diferente daquele do meu tempo. Chamam a isso de neoliberalismo. Também vejo marxistas triviais repetindo palavras de ordem. Eles não conhecem minhas obras e, desse modo, sua ideologia é indigente. Aliás, sempre disse para Engels que não sou marxista. Para piorar, os chamados marxistas são intelectuais burgueses, que aqui em São Paulo comem no Antiquarius e se vestem na Daslú. Já o proletariado não quer saber de mim, mas de melhorar de vida como, aliás, aconteceu. ML: O senhor é contra a globalização? Marx: Como poderia ser se escrevi no final do “Manifesto do Partido Comunista:” “Proletários de todo o mundo, uni-vos”. ML: Bem, agradecendo a honra dessa entrevista gostaria que deixasse suas palavras finais para a esquerda brasileira. Marx: Jamais a ignorância serviu a alguém. E me diga, senhora, aqui servem cerveja Kaiser?
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, escritora.
Maria Lucia Victor Barbosa
Finalmente ele aceitou meu convite para uma entrevista. Eu mal podia acreditar. Estaria frente a frente com o homem que teve o mérito de desvendar aspectos novos da sociedade, apesar da inexatidão científica de suas profecias ou da dose de utopia e de messianismo contidos em sua obra. Mas seja lá como for o monumental pensamento de Karl Marx havia povoado minha juventude com sonhos revolucionários de um romantismo inigualável.
Assim sendo, meu coração batia de ansiedade enquanto me dirigia para o lugar do encontro. Ele determinara que o local fosse num dos mais belos shoppings centers de São Paulo, o Higienópolis, verdadeiro templo do consumo desvairado. Como desobedecer? Para completar tamanha excentricidade, o alemão barbudo exigira ser entrevistado enquanto tomássemos lanche no McDonald’s, o que estranhei bastante. Aliás, fiquei imaginando o que diria se nos visse o filósofo e baderneiro francês José Bové, produtor de queijos de cabra que estudou em Harvard, e que nas horas vagas faz protestos contra os Estados Unidos, homem cuja birra aos lanches do McDonald’s acabou por conduzi-lo ao estrelato em 2001 num encontro anti-Davos, palco petista de Porto Alegre onde, ao que parece, foram proibidos hambúrgueres e servido todo dia um prato de indigesta salada russa. Não apurei na ocasião se o cardápio continha ou não produtos transgênicos.
Pois é, se Marx queria ir ao símbolo diabólico do capitalismo quem era eu para contrariar sua vontade? Então, na hora combinada postei-me na entrada da maldita lanchonete em meio a uma democrática e pequena multidão de anônimos comilões de sanduíches, formada por jovens da periferia e de pessoas da classe média que se distinguem, como se sabe, pelo terrível vício de ingerir coca-cola, outro demoníaco produto que mantém o Terceiro Mundo açucarado e alienado aos apelos gastronômicos do imperialismo.
Depois de quarenta minutos de atraso, que me angustiaram por uma eternidade, ele surgiu como o russo Anienkof o descrevera. Sua cabeça parecia a de um leão de basta cabeleira grisalha, as mãos cobertas de pêlos, as maneiras desajeitadas, todavia orgulhosas, arrogantes e autoritárias que sem dúvida ficaram como legado para muitos dos seus seguidores. Todo esse aspecto conferia com o que eu esperava ver, menos o traje. Em vez da roupa desalinhada e preta Marx vestia uma camiseta branca “dry fit” e ostentava calça jeans de griffe. Nos pés, botas, à moda Bush e Fox.
No que chegou me ordenou com sua voz metálica e vibrante feita para emitir juízos radicais sobre os homens e as coisas, para pronunciar palavras imperativas: “A senhora me pega um big mac com fritas e uma coca de 500 ml que na seca não vou falar nada”. Obediente, fui até a fila para adquirir o lanche, enquanto o majestoso Karl Marx se aboletava numa mesinha da praça de alimentação acomodando suas sacolas de compras na cadeira vaga. Tudo nos conformes, eu com meu queijo quarteirão e meu guaraná bem brasileiro desferi a primeira pergunta com voz trêmula:
ML: Aonde e em que ano o senhor nasceu? Marx: Em Tréves, em 1818. ML: Gostaria de falar sobre seus pais? Marx: Preferia não falar. Meu pai era um advogado judeu convertido ao luteranismo que queria que eu seguisse a carreira jurídica para a qual não tinha vocação. Ele implicava com meu gosto pela poesia. Dizia que não me queria ver transformado num poetinha qualquer. Minha mãe vivia me dizendo que em vez de ficar escrevendo o Capital eu devia conseguir algum para mim. Ambos me aborreciam com seus sermões sobre minha vida boêmia em Bonn, quando eu, ainda jovem, gastava um dinheirão e tomava pileques homéricos. Achava-os muito burgueses. Hoje entendo que as mães têm sempre razão. ML: O senhor teve um grande amigo, Engels. Marx: De fato, Engels muito me ajudou. Fez vários artigos que eu assinava quando escrevia no New York Daily Tribune, escreveu obras comigo, me auxiliou financeiramente inúmeras vezes. Um amigão sem o qual teria morrido de fome com minha família, e que andei depois escorraçando, mas no final nos entendemos apesar dele ter ficado muito magoado. ML: E sua esposa? Marx: Chamava-se Jenny von Westphalen e era de família nobre. Uma santa. Suportou nossa vida miserável porque eu não trabalhava, sem se queixar. Dois de nossos filhos e uma filha morreram porque eu não tinha recursos para tratá-los, e a Jenny agüentou firme. ML: Mas esse devotamento de Jenny não o impediu de ter uma filha com a governanta Helena. Marx: Prefiro não falar sobre o assunto. ML: Então me fale sobre suas idéias. Resuma seu pensamento sobre religião. Marx: a religião é o ópio do povo e eu sou materialista. ML: O senhor dizia que a colonização dos países do Terceiro Mundo era a condição fundamental para a criação do capitalismo de onde sairia um proletariado revolucionário, continua achando isso? Marx: Como sabe a professora a teoria na prática é outra. Assim, deu tudo errado. Previ o capitalismo plenamente desenvolvido para a Alemanha e a Inglaterra, saiu na Rússia e aí, danou-se. Quanto ao capitalismo dos “boas vidas” é um arremedo, seu projeto de socialismo possui teor medieval, não têm propostas concretas e suas revoluções só servem para que tiranetes se locupletem no poder. Estou desencantado. Para culminar o capitalismo vive superando suas crises e se tornou algo diferente daquele do meu tempo. Chamam a isso de neoliberalismo. Também vejo marxistas triviais repetindo palavras de ordem. Eles não conhecem minhas obras e, desse modo, sua ideologia é indigente. Aliás, sempre disse para Engels que não sou marxista. Para piorar, os chamados marxistas são intelectuais burgueses, que aqui em São Paulo comem no Antiquarius e se vestem na Daslú. Já o proletariado não quer saber de mim, mas de melhorar de vida como, aliás, aconteceu. ML: O senhor é contra a globalização? Marx: Como poderia ser se escrevi no final do “Manifesto do Partido Comunista:” “Proletários de todo o mundo, uni-vos”. ML: Bem, agradecendo a honra dessa entrevista gostaria que deixasse suas palavras finais para a esquerda brasileira. Marx: Jamais a ignorância serviu a alguém. E me diga, senhora, aqui servem cerveja Kaiser?
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, escritora.
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