quinta-feira, 23 de agosto de 2012


EM DEFESA DA PRIVACIDADE


Maria Lucia Victor Barbosa

23/08/2002

 

 Julian Assange, fundador do site Wikileaks, apareceu na sacada da Embaixada do Equador em Londres e proferiu um discurso para a plateia de fãs, jornalistas e policiais que o aguardavam. Era a figura de Narciso em pessoa. Somente dirigentes políticos muito poderosos se amam tanto quanto o ególatra Assange.

Mas, de onde vem tanta arrogância e vaidade que se estampam no rosto do australiano de 41 anos, um janota enfatuado que parece ter como diversão predileta atacar os Estados Unidos? Vem do fato de que ele se sente o grande hacker da atualidade, o fofoqueiro global da típica imprensa “marrom” dos escândalos, enfim, o cyber terrorista desse admirável mundo novo que pretende controlar como um deus cibernético.

Em Assange há muitas contradições. Ele fala em direitos humanos, em liberdade de expressão, lança frases de efeito como a contida na acusação de que os Estados Unidos realizam ‘”caça às bruxas”, ou seja, a ele, uma vitimazinha inocente que arrombou e expôs documentos secretos ou correspondências íntimas de diplomatas norte-americanos para achincalha-los.

Não sei se fez o mesmo com documentos iranianos relativos à bomba atômica que Ahmadinejad fabrica, se revelou ao mundo as barbaridades praticadas contra direitos humanos na China, na Coreia do Norte, em países do Oriente Médio, em países africanos, em Cuba. Tampouco desconheço se o ciberjornalista levantou documentação e espalhou aos quatro ventos o cerceamento da mídia na Venezuela, na Bolívia, na Argentina. Ele até louva, incluindo o Brasil, a Venezuela e a Argentina por terem levado seu caso à Organização dos Estados Americanos (OEA).

Quanto ao Equador, onde pediu asilo e cujo governo não é nada favorável à liberdade de expressão, o hacker chamou de “corajosa nação latino-americana que tomou o partido da justiça”. Entretanto, segundo Assange, compete aos Estados Unidos parar com a “campanha ao redor do mundo contra jornalistas que iluminam os segredos dos poderosos”. Os países ideologicamente afins Assange prefere manter à sombra os segredos militares e diplomáticos.

Julian Assange conquistou muitos adeptos. Primeiro, porque na atualidade medíocre e vulgar convém odiar tudo que é bom, evoluído, competente, o que inclui países como os Estados Unidos e Israel. Esse tipo de xenofobia é muito comum, inclusive, na América Latina que tem como porta-voz mais destacado o boquirroto venezuelano Hugo Chávez. Segundo, porque a exposição da privacidade se tornou uma constante em redes sociais, programas de TV, performances individuais ou grupais, o que combina com o hacker “iluminador de segredos”.

Nada, porém, acontece por acaso. Tudo é processo. Do moralismo hipócrita, que no passado escondia comportamentos socialmente indesejáveis, passou-se paulatinamente ao amoralismo escancarado. Do modo de vida onde existiam valores como dignidade, respeito ao próximo, honestidade chegou-se ao vale-tudo dos anti-valores.

Desse modo, a civilização foi se transformando em barbárie. Não há mais distinção entre certo e errado. Desapareceram os pudores e no mundo massificado a ânsia de romper com o igualitarismo cultural leva ao exibicionismo, não de formas evoluídas da mente, mas de modos mais assemelhados aos dos animais.

Nesse contexto Assange é o grande líder que rompe com a privacidade, o carteiro que viola a correspondência das nações, o bisbilhoteiro mor que “ilumina” intimidades. Ele desnuda segredos como os adolescentes se desnudam em redes sociais ou mulheres distribuem suas fotos pela Internet em que aparecem nuas. Julian Assange faz parte do tempo dos vídeos pornográficos onde relações sexuais são exibidas para o mundo.

Nessa época a educação das crianças se torna algo difícil. Na família, como mostrou Carlos Alberto Di Franco em excelente artigo (O Estado de S. Paulo – 20/08/2012) faltam muitas vezes o carinho e o diálogo e “os jovens crescem sem referências morais e afetivas”. “A ausência de limites e a crise de autoridade” atestam também a desagregação familiar.

A escola, que mal sabe ensinar o bê-á-bá, não forja mais o caráter dos alunos através de valores. Droga e violência se fazem presentes e, para culminar é estimulada precocemente a atividade sexual desde a mais tenra idade, enquanto a escolha da sexualidade é praticamente imposta em mentes ainda não prontas para assimilar tais comportamentos. Atualmente só falta apontar o incesto, o estupro e a pedofilia como direitos humanos e incentivar tais condutas.

A interferência estatal maléfica na educação mostra o rompimento da privacidade, enquanto individualmente os “bárbaros modernos” violam por vontade própria sua intimidade.

 Tais comportamentos conduzem ao aviltamento da personalidade, à perplexidade moral, à confusão de sentimentos, à decadência social. É preciso, pois, resgatar a privacidade, espaço único e inviolável onde se é realmente livre. É preciso dizer não ao Big Brother.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.



@maluvi

sexta-feira, 10 de agosto de 2012


MERCOSUL: A OPÇÃO PELO ATRASO


Maria Lucia Victor Barbosa

07/08/2012



O impeachment de Fernando Lugo, irmão ideológico de Lula da Silva, levado a efeito pelo Congresso Nacional conforme as regras constitucionais do Paraguai motivou a ira de Dilma Rousseff que brandiu seu chicote autoritário contra o pequeno país. Com o firme apoio da Argentina e a vacilante concordância do Uruguai, a presidente brasileira pôs o Paraguai de castigo com professora feroz e irredutível. Não expulsou da escola latino-americana, mas suspendeu o aluno por mau comportamento democrático.

A questão democrática nesse episódio aparece como aberrante hipocrisia na medida em que, aproveitando-se da ausência paraguaia Roussseff acolheu no Mercosul o despótico Hugo Chávez que, segundo Lula da Silva, esbanja democracia. Vejamos suscintamente a democracia chavista e seu êxito econômico:

Chávez tentou assumir o poder através de golpe e não conseguiu. Posteriormente eleito fez uma Constituição à sua imagem e semelhança e vem se perpetuando no poder.

O caudilho inventor de um nebuloso Socialismo do Século 21 odeia a liberdade de pensamento e não admite opositores. Por conta disto é um implacável perseguidor da mídia que só pode noticiar a seu favor.

Como um Mussolini dos trópicos o boina vermelha criou milícias formadas por civis que atacam seus adversários e os impedem de realizar manifestações.

Chávez se relaciona com os piores tiranos mundiais, como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad.  É um adorador de Fidel Castro e de seu fracassado e sanguinário regime tropical-socialista. Apesar de negar abriga as Farc com as previsíveis consequências da narcoguerrilha.  Seguindo essa linha que privilegia terroristas é antissemita e visceralmente contra os Estados Unidos.

Do ponto de vista econômico o venezuelano mantém seu país como exportador de um produto único, o petróleo, enquanto falta alimento para a população. Aliás, faltam hospitais, as estradas estão em péssimo estado e a inflação corre solta. Sem produção além do petróleo faltam empregos e aí entra o modelo Lula: as caridades oficiais que mantêm os pobres contentes e gratos ao salvador da pátria e sem necessidade de trabalhar, mas, sempre pobres.

Como seus compadres latino-americanos, Chávez não cumpre compromissos internacionais e é um contumaz nacionalizador de empresas estrangeiras.

Apesar de tudo isso, a fada madrinha de Chávez, Dilma Rousseff fez um belo discurso para comemorar a entrada do novo sócio: “A presença da Venezuela no Mercosul amplia nossas capacidades internas, reforça nossos recursos e abre oportunidades para vários empreendimentos.

Provavelmente, como Lula que não sabia de nada, a presidente ignora que Chávez não foi sequer capaz de pagar sua parte para a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. E não é de se duvidar que o boquirroto dê também o calote na compra de aviões fabricados pela Embraer, que insinuou irá comprar.

Para piorar, o Mercosul vai adotar de vez a nacional lambança ou o social calhordismo com a entrada de mais dois ilustres bolivarianos: Evo Morales da Bolívia e Rafael Correa do Equador.

Se a Bolívia continua um dos países mais pobres do continente e o Equador teve 8% crescimento em 2011, seus respectivos presidentes seguem o padrão Chávez no quesito dor de cotovelo dos Estados Unidos, ímpetos nacionalisteiros, incompatibilidade com a liberdade de expressão e jamais poderiam ser chamados de democratas. Falta agora incluir Cuba no Mercosul em homenagem ao déspota do Caribe. Não houve convites ao Chile ou a Colômbia, pois esses países não fazem parte do time dos compadres do século 21.

Conclui-se, pois, que o Mercosul foi desfigurado e houve uma clara opção pelo atraso, cuja grande responsabilidade pode ser atribuída ao Brasil.

Como afirmou o diplomata José Botafogo Gonçalves em artigo no jornal O Estado de S. Paulo (2/8), com relação ao Mercosul: “não se pode mais falar de uma zona de livre comércio e de união aduaneira, que está no espirito da fundação do bloco, mas, sim, de um novo clube com objetivos políticos e econômicos que não valoriza o mercado, a livre circulação de mercadorias e serviços, a internacionalização das economias e a competitividade”.

Portanto, caros compatriotas, deixemos de lado o futuro e voltemos à Idade de Pedra Lascada. Nada de oportunidades, de expansão, de democracia, de liberdade. Afundemos no terceiro-mundo que tanto amamos. Levemos adiante a inevitável tendência ao fracasso que escrevemos por nossa conta e risco em nossa história para depois, é claro, culparmos os Estados Unidos, o imperialismo, o capitalismo ou qualquer outro bode expiatório que tire de nossos ombros as mazelas que nós mesmos provocamos.

 Como afirmou Simón Bolívar, em 1830: “Se acontecesse que uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo, isso seria a última metamorfose da América Latina”. Em 2012 nada mudou.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.



@maluvi

quinta-feira, 19 de julho de 2012


PORQUE ME ENVERGONHO DO MEU PAÍS


Maria Lucia Victor Barbosa

19/07/2012



 Desde que o PT foi entronizado no posto mais alto da República a nação foi se acanalhando. A sucessão de escândalos anestesiou as mentes e poucos se indignam com a imoralidade reinante nos Poderes Constituídos. Os sentimentos populares foram amestrados pela propaganda incessante e o mito do pobre operário foi suficiente para que a corrupção sempre havida alcançasse seu paroxismo sem que nenhum protesto fosse ouvido. Não houve nem partidos, nem instituições, nem grupos de pressão que agissem como oposição ao desgoverno populista, perdulário, enganador.

Lula foi reeleito. Verborrágico como um caudilho latino-americano, debochado como um frequentador de boteco, praticante do autoelogio, ególatra ao extremo, ele conquistou as massas pobres iludidas com bolsas da caridade pública. Atraiu o apoio dos ricos que financiaram suas campanhas e, depois, se refestelaram nos lucros que ele lhes proporcionou. A classe média, especialmente a composta por professores, estudantes universitários, artistas, clérigos da Teologia da Libertação, ou seja, os entusiastas das utopias que prometeram o céu e transformaram a vida em inferno, viram no pelego sindicalista a ansiada personificação do proletário que iria liderar a lutas de classes.

Com Lula lá empunhando seu cetro diante de companheiros e seguidores, o pior da América Latina em termos de governantes se tornou expressivo. E o magnânimo presidente, em detrimento dos interesses brasileiros, facilitou a vida de déspotas travestidos de democratas como Fidel Castro, Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e outros mais. Com tais compadres Lula compartilhou o ódio à liberdade de imprensa, como é também o caso de Cristina Kirchner, sempre adulada pelo petista.

Em todo mundo a política externa lulista seguiu vergonhosamente apoiando os piores tiranos que exercitam aberrante desrespeito aos direitos humanos como, por exemplo, o iraniano Mahmoud Ahmadinejad.

 Acontece que Lula da Silva sempre foi um homem de muita sorte, o que é confundido com capacidade. Herdou a herança bendita do Plano Real, surfou durante seus dois mandatos, até 2008, nas águas calmas da economia mundial e ainda logrou eleger sua sucessora, Dilma Rousseff. Esta fiel seguidora do seu criador político imita seus gestos, perpetua seu populismo, não dá um passo sem consultá-lo. Sobre ela também um mito é tecido: é a gerente, a “faxineira”, a economista.

Entretanto, se Lula satisfazia a plateia contando piadas de mau gosto em péssimo português, Rousseff, quando discursa, parece não conseguir ligar um parágrafo com outro se levanta os olhos do papel. Sua linguagem é confusa. Seu pensamento obtuso. Mesmo quando tenta agradar assume uma atitude colérica como se vivesse em perpétua fúria.

Em política externa ele segue, como em tudo mais, as ordens do mestre. Foi assim que, por seu intermédio, em conluio com Cristina Kirchner e aquiescência de José Mujica, o Brasil mais uma vez encenou procedimento vergonhoso, covarde, arbitrário ao suspender o Paraguai do Mercosul por causa do impeachment de Fernando Lugo, um ato legítimo, legal e soberano daquele país.

Esta, sim, foi uma manobra desonesta levada a efeito para introduzir no Mercosul Hugo Chávez, o despótico governante da Venezuela que tentou assumir o poder através de um fracassado golpe. Posteriormente foi eleito, mas, alterando a Constituição a seu-bel prazer tem se perpetuado no cargo desde 1999. Prepara-se agora para nova eleição com pleno apoio e intromissão de Lula na política venezuelana.

Enquanto seguem as lutas do poder pelo poder, sinais preocupantes vão aparecendo na esfera econômica, em que pese o falso otimismo da presidente e de seu ministro da Fazenda, Guido Mantega. A produtividade da economia encolheu pelo segundo ano consecutivo. A Petrobrás estagnou. Segundo O Estado de S. Paulo, “a produção industrial recuou cinco anos e vai cair mais”. “De janeiro a junho o valor das exportações foi de 1,7%, menor do que um ano antes, enquanto o das importações foi 3,7% maior”. Aumenta a inadimplência e a inflação. O reflexo no desemprego será inevitável e já começou acontecer. E o PIB, que agora não tem importância para a presidente, pode ficar abaixo de 2%.

Culpa dos ricos, da crise mundial, dirão Rousseff e Mantega para esconder o próprio fiasco. Será só isso? Segundo o BIS, o Banco Central dos Bancos Centrais: “O caminho escolhido nos últimos anos para promover o crescimento econômico – crédito – se tornou insustentável e pode levar o Brasil ao desastre”.

Por essas e por outras me envergonho do meu país.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.


quinta-feira, 28 de junho de 2012


A HIPÓCRITA “GUERRA DO PARAGUAI”


Maria Lucia Victor Barbosa

26/06/2012



O Rio+20, é sabido, redundou num monumental fiasco de dimensões globais. A montanha pariu uma carta de intenções rasa como um pires e, para piorar, a presidente Rousseff não ficou bem na foto, especialmente quando foi criticada na “Cúpula de Mulheres”.

Na imensa Torre de Babel teve de tudo: mulheres nuas, índios de cocar e saiote de palha filmando e fotografando com filmadoras e celulares de avançada tecnologia, indefectíveis sem-terra sempre presentes em manifestações e não no cultivo do solo, adeptos da maconha livre, enfim, povos variados que, de algum modo, foram financiados para no Rio de Janeiro fazer turismo em favelas e festejar em casas noturnas e em restaurantes.

Não foi, porém, um carnaval sem alguns contratempos, pois numa espécie de antecipação do que vai ser a Copa de 2014, as delegações estrangeiras tiveram que enfrentar falta de estrutura no aeroporto Tom Jobim, ausência de recepcionistas que falassem inglês, lentidão no trânsito e uma série de confusões e desconfortos que, naturalmente, não foram experimentados pelos chefes de Estado, excluídos os mais importantes que tinham mais o que fazer e não vieram prestigiar o governo brasileiro. Os que compareceram gostaram da carta chinfrim, enquanto as ONGs se recusaram a assinar o insosso documento.

No entanto, a festa global teve um toque interessante. Cientistas se dividiram entre os que dizem que o mundo vai esquentar por conta da intervenção do homem que não cessa de jogar gás carbônico na atmosfera e os que falam numa nova era glacial e excluem a interferência humana nas catástrofes planetárias. Um instigante debate entre ideologia e ciência. Afinal, o cientista que previu as tremendas consequências do aquecimento global voltou atrás em suas teorias que lembravam o fim do mundo para o agrado de milenaristas e, também, de esquerdistas que com a queda do Muro de Berlim resolveram a empunhar a bandeira verde.

Não se pode deixar de mencionar a figura macabra presente ao evento: Mahmoud Ahmadinejad. O que teria o tenebroso personagem vindo fazer no Rio de Janeiro? Aproveitar para abraçar seu grande amigo Lula da Silva? Disseminar a ideia de uma ecologia atômica? Pregar seu terrorismo que iguala os infiéis na morte?

O abjeto presidente do Irã que nega o Holocausto tem em mente, em primeiro lugar, o extermínio de Israel. Em seu país, “democraticamente”, manda apedrejar mulheres, persegue minorias religiosas e homossexuais. Como é “democrático” não tolera a imprensa livre.  Dá “lições de democracia” quando prende, tortura e mata os que contestam suas barbaridades. Entretanto, esse ente abominável, que se mostra avesso aos direitos humanos, é idolatrado por Lula da Silva e seus companheiros que dizem que os problemas do Irã são questão de soberania.

Muito melhor aprender com os judeus sobre desenvolvimento sustentável. Isto porque, Israel é líder mundial em eficiência do uso da água, líder mundial inovador na área de alimentos, líder em tecnologia de energia solar e térmica. Assim, se houve alguma coisa séria e que fizesse a diferença nesse Rio+20, essa coisa foi a presença de representantes de Israel.

Quanto a hipócrita “guerra do Paraguai”, movida em estilo latino-americano, parece que o governo petista não aprendeu com a vexaminosa lição de Honduras. Quem não se lembra da embaixada brasileira transformada em picadeiro de Manuel Zelaya, o adepto de Chávez que tramava, a exemplo deste, conspurcar a Constituição de seu país a fim de se perpetuar no poder?

 Acometida por amnésia histórica a presidente Rousseff se apressou em enviar o chanceler Patriota ao Paraguai com recomendação de que falasse grosso com o Congresso daquele país, o que fez cair por terra a teoria da soberania que é sempre apresentada quando o déspota é companheiro.

Cuba, com seu sanguinário e longevo regime castrista é tida pelo governo petista como intocável nação soberana. Chávez, o golpista por excelência, o brutal inimigo da liberdade de pensamento, recebe marqueteiros enviados por Lula para disputar mais uma eleição. Evo Morales, que expropriou a Petrobrás e tem tido problemas com revoltas populares é muito apreciado no Brasil. Cristina Kirchner, que está enterrando a economia argentina, reinventou a guerra das Malvinas para atrair as simpatias do seu povo e fez mais: suspendeu o Paraguai da reunião do Mercosul em Mendoza. Aliás, os nove integrantes do bloco aceitaram a decisão em nome da “ruptura democrática em Assunção”, apesar do impeachment de Lugo ter sido conduzido de acordo com normas constitucionais.

As sanções que o Brasil pretende impingir ao Paraguai em nome de um golpe que não existiu, demonstra a imitação do estratagema de Cristina Kirchner com sua fictícia guerra das Malvinas. Teríamos uma espécie de guerra do Paraguai para tentar distrair as atenções, uma vez que nossa economia segue velozmente ladeira abaixo.

 Contudo, para que não nos envergonhemos novamente é preciso que o Brasil respeite a decisão soberana do Paraguai e deixe que Lugo, em vez da pantomima do governo paralelo, siga sua verdadeira vocação aumentando a prole como um autêntico pai da pátria.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.


sexta-feira, 1 de junho de 2012


LULA E O CAPITÃO SIMONE SIMONINI


Maria Lucia Victor Barbosa

01/06/2012



É sabido que a arte imita a vida e muitas vezes uma obra literária revela mais do que um tratado. Assim, quem ler O Cemitério de Praga, livro mais recente do notável escritor e pensador, Umberto Eco, sem dúvida fará um paralelo com o que se passa na política brasileira em termos de essência, é claro, e não de cenário histórico com costumes e personagens próprios de uma época.

Nesta obra Umberto Eco conduz o leitor a uma vertiginosa aventura entre intrigas, calúnias, crimes, traições, conspirações. Destaca-se a sordidez própria das tramas presentes nos jogos do poder, sendo que o personagem principal, capitão Simone Simonini que conduz o enredo é o velhaco por excelência, o ardiloso falsificador, o traidor que oscila entre facções, o cínico que justifica todos seus atos, o frio calculista, o impiedoso carrasco dos adversários. Enfim, Simonini, que tem personalidade dupla é um tremendo mau-caráter, um inescrupuloso, um corrupto que se vende e serve a quem lhe pagar mais.

Estas características não parecem familiares aos que me leem? Não vem à mente determinados tipos que transitam com desenvoltura por nossa ribalta política? É a selva humana em ação onde prevalece como mostrou Maquiavel, “a força do leão ou a astúcia da raposa”.

Feitas essas observações lancemos um olhar sobre o encontro de Lula e o ministro, Gilmar Mendes, do STF, promovido por Nelson Jobim. No episódio, apesar dos muitos desmentidos e versões, um todo-poderoso Lula chantageia e lança seu veneno sobre o ministro oferecendo proteção de capo para não envolvê-lo na CPI do Cachoeira, desde que ajude a protelar o temido julgamento do “mensalão”, crime cometido durante seu governo por companheiros, entre eles, José Dirceu.

Nesse caso, o ex-presidente assume sua porção de um fabuloso Simonini. Ele faz questão de demonstrar que não só dirige a CPI como manipula o STF, pois afirma já ter conversado com outros ministros ou ter meios para convencê-los do que deseja, como seria o caso da ministra Carmem Lúcia a ser influenciada pelo o ex-ministro Sepúlveda Pertence.

Lula é o caso típico de alguém que tendo tido origem humilde tornou-se dono de um imenso poder do qual abusa, que lhe propicia as delícias da burguesia que antes criticava e no qual se agarra com unhas e dentes.

Naturalmente, nem todos que foram pobres e que tiveram o mérito de ascender na escala social agem desse modo. Exemplo disso, o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Lula, contudo, não subiu por mérito e sim por sorte, sendo sua escola a sindical onde aprendeu tretas e mutretas dignas do capitão da ficção de Umberto Eco.

Matreiro, Lula é confundido com gênio da política e sua verborragia cheia de impropriedades linguísticas, gafes, palavrões, piadas de mau gosto é saudada como identificação perfeita com o povo. Ele se move pela lei da desforra do que foi e apesar da arrogância, da fanfarrice, da vaidade desmesurada, no fundo é um recalcado com complexo de inferioridade que precisa constantemente de holofotes, aplausos, premiações, títulos, para se sentir bem. Compara-se a Jesus Cristo, Tiradentes, Jk e se gaba de ser o melhor presidente que o mundo conheceu, o descobridor  do Brasil que antes dele não existia, o salvador dos pobres e oprimidos.

Uma competente propaganda e a tendência humana para acreditar na mentira compõem o mito e o PT faz de sua criação o ser inimputável, intocável, onipotente, onisciente, o pequeno deus que no fundo sabe que tem pés de barro.

No caso do encontro com o ministro, Lula/Simonini, como é de seu feitio negará o que disse, não sabe de nada, não viu nada, nenhuma afronta ao STF foi feita, no que foi secundado pelo anfitrião, Nelson Jobim. Ao mesmo tempo, a rede de intrigas e versões entrou em ação e nisto pelo menos nisso o PT é competente. O errado é o ministro que ao se defender ficou mal visto. Pior, ficou sozinho.

 Enquanto Lula foi homenageado pela presidente Rousseff, o presidente do STF, Carlos Ayres Britto junto com seus pares declarou que o problema de Gilmar Mendes é pessoal. O ministro Marco Aurélio Mello declarou que é legitimo Lula opinar sobre o julgamento do mensalão, do qual, aliás, o ex-presidente foi avisado em 2005 por Marcondes Perillo, hoje na fogueira da CPI. E o próprio José Dirceu andou dizendo que não fazia nada sem que Lula soubesse.

Em todo caso, as coisas vão bem para Lula, “mensaleiros” e companheiros da cúpula petista. A tal CPI para tirar o foco do julgamento do “mensalão” é uma farsa que desmoraliza ainda mais o Legislativo. O Judiciário foi conspurcado em sua mais alta corte sem ninguém reclamar. Sobra a hipertrofia do Executivo que se prepara para a volta, em 2014, do capitão Simonini, quer dizer, de Lula e de seus companheiros. E ainda se acredita que vivemos em plena democracia.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.


sexta-feira, 25 de maio de 2012


QUEM GOVERNA?


Maria Lucia Victor Barbosa



Quem governa? Aqueles em que votamos? Que elegemos para dirigir os destinos do País e, portanto, o nosso? Parece que não é tão simples assim.

Dilma Rousseff ganhou a eleição presidencial, contudo, é o ex-presidente Lula da Silva que em larga medida ainda governa. Mesmo porque, volta e meia ele se reúne com sua afilhada para orientá-la e teve o cuidado de indicar a maioria dos ministros que compuseram o ministério de Rousseff. Não deu certo porque muitos ministros caíram, não porque foram faxinados pela presidente, mas porque se tornou inviável mantê-los depois da enxurrada de provas de corrupção que circularam pela imprensa. Não é à-toa que Lula sempre atacou a mídia e o PT sonha há tempos em acabar com a liberdade de expressão, algo recentemente ostentado claramente pelo presidente do partido, Rui Falcão.

Lula da Silva manda tanto que tem maquinado acertos eleitorais e, contrariando a presidente Rousseff que deve ter lá seus motivos para não ter querido a CPI do Cachoeira, ordenou que a Comissão fosse criada. Seu intuito segundo jornais e revistas seria o de salvar companheiros envolvidos no escândalo do “mensalão”, especialmente o chamado chefe da quadrilha, José Dirceu, desmoralizar o PSDB por conta do suposto envolvimento do governador Marconi Perillo, de Goiás, com o bicheiro, desmerecer o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que denunciou os quadrilheiros do esquema e, de quebra, conseguir ganhar em São Paulo elegendo o desastrado ex-ministro da Educação, Fernando Haddad.

Entretanto, se Lula é tido como um gênio da política a jogada da CPI do Cachoeira não está dando certo. A ida de Carlos Augusto de Almeida Ramos ao Congresso foi desmoralizante. Afinal, os parlamentares sabiam de antemão que Cachoeira ficaria em silêncio por direito constitucional e por orientação de seu advogado, Márcio Thomaz Bastos que, curiosamente, foi ministro da Justiça de Lula da Silva. Contudo, senadores e deputados aproveitaram a oportunidade para fazer da pantomima seu palanque com performances de indignação que não existiram, por exemplo, diante do silêncio de Delúbio Soares e Silvinho Land Rover em outra CPI que, como as demais, resultou em nada.

A senadora Kátia Abreu, outrora DEM agora do Partido do Kassab, portanto, da base aliada do governo, foi cortante: “Isso é ridículo. Estamos aqui perguntando para uma múmia. Não vou ficar aqui dando ouro para um bandido. Não vamos fazer papel de bobo para um chefe de quadrilha com cara de cínico”.

O deputado do PR-DF, Ronaldo da Fonseca, saiu-se com essa: “O senhor está com vontade de responder, seu Cachoeira, mas não responda agora não”.

A senadora bem que poderia ter pedido o encerramento não apenas da sessão, mas da grotesca CPI. Afinal, se continuarem blindando a empreiteira Delta e seu dono Fernando Cavendish, além de governadores e demais políticos envolvidos, a CPI não terá a menor serventia. Culpem, então, a senhora que serve cafezinho na Delta, o office-boy da Veja e apressem o que já se sabe irá acontecer: o impeachment do senador Demóstenes. Feito isso, desmontem o picadeiro.

Quanto ao deputado Ronaldo, foi impróprio para maiorais. Imagine-se se Cachoeira resolvesse falar. Não ia sobrar muito gente.

Na verdade, a CPI ficou desmoralizada quando o deputado petista, Cândido Vaccarezza, enviou um SMS para o governador peemedebista do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, grande amigo de Lula da Silva e de Fernando Cavendish, com os seguintes dizeres na mais pura versão da “Flor do Lácio”: “A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe. Você é nosso e nós somos teu”.

Aqui se volta à pergunta inicial: Quem governa? Além daqueles que elegemos para cargos do Executivo e do Legislativo, tudo indica que fomos ou somos governados também por Carlinhos Cachoeira tal seu poder de influência. Ele possuía ou possui uma impressionante rede de relações no Judiciário, na Polícia, no Ministério Público, no Executivo, no Legislativo, no mundo dos negócios. Cavendish, dono da empreiteira mais agraciada com obras pelo governo federal, pelo governo do Rio de Janeiro e de outros Estados, foi chamado de “sócio oculto” do contraventor. Além disso, Cachoeira nomeava gente, influía nas emendas ao Orçamento da União. Se isso não é governar não sei mais o que é.

Esse imenso poder paralelo não impede o imperial mando de Lula da Silva. O processo do “mensalão” que se arrasta há quase sete anos corre o risco de não dar em nada se Lula insistir na tese de que o “mensalão” não existe. Se isso acontecer será a pá de cal no Estado Democrático de Direito e o PT continuará a reinar junto com os que também mandam no País: os Cachoeiras e o poder paralelo dos traficantes e de outros tipos de bandidos que afrontam impunemente a população. Afinal, sem o cumprimento das leis um país não é civilizado. Prevalece o “estado de natureza” de que falou Hobbes, “onde não há teu nem meu, mas o que eu puder tomar, pelo tempo que puder conservar”.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga
mlucia@sercomtel.com.br

sábado, 12 de maio de 2012

VIEJOS TIEMPOS
Maria Lucia Victor Barbosa
22/04/2012

Em que pese os sinais de modernização havidos em alguns países da América Latina, especialmente a partir dos anos 90, as marcas da colonização que plasmaram a mentalidade dos seus povos nunca deixaram de existir. São mantidos ou emergem como nos viejos tiempos: instabilidade política, crises econômicas, incompetência governamental, corrupção, populismo, nepotismo, patrimonialismo, autoritarismo, impunidade, hipertrofia do Poder Executivo, ausência de cultura cívica.
Além disto, como afirmei em um dos meus livros, América Latina, em busca do paraíso perdido, latino-americanos possuem uma estranha mescla de altivez e sentimento de inferioridade. Para se livrarem da síndrome do fracasso, das mazelas, das fraquezas, cujas raízes se prendem ao passado colonial, descarregam sua frustração em possíveis culpados, especialmente, nos Estados Unidos por conta do insuportável progresso daquele país. Latino-americanos só se esquecem de perguntar o que fizeram a si mesmos.
O recente ato de populismo desvairado e nacionalismo irracional da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, ao expropriar a YPF, maior empresa petrolífera do país adquirida pela Repsol espanhola em 1999, relembra viejos tiempos da era Perón.
Adorado até hoje por muitos argentinos, cultuado como uma espécie de deus, admirado como herói, Juan Domingo Perón tem também os que o relembram como déspota odiado, causa de todos os males da Argentina. De todo modo, cabe acentuar alguns elementos marcantes do governo peronista, os quais contribuíram de forma decisiva para o declínio do país que chegou a ser chamado de “Colosso do Sul”. Derivados de toda uma evolução histórica, social e politica esses elementos encontraram em Perón as condições ideais de expansão e foram justamente eles que Cristina Kirchner ressuscitou: a falsa democracia, o nacionalismo xenófobo, a demagogia exacerbada. Um filme que a Argentina já viu várias vezes e que nunca teve um final feliz.
Recentemente, com o mesmo intuito de desviar as atenções dos argentinos da situação econômica, na qual avulta uma inflação da ordem de 25% e a fuga de bilhões, sendo que neste ano já deixaram o país US$ 22,5 bilhões, a presidente Kirchner voltou aos viejos tiempos do General Leopoldo Galtieri e simulou desencadear outra guerra das Malvinas.
Naquela aventura ao mesmo tempo grotesca e trágica, o General Galtieri chegou a afirmar: “Não cremos que a Grã-Bretanha se mobilize pelas Malvinas”. Ao contrário, na Inglaterra houve imediato sentimento de defesa dos kelpers que, segundo os britânicos tinham o direito de decidir seu futuro e se livrar de um despotismo estrangeiro arbitrário e brutal.
Na guerra que durou setenta e dois dias, levaram a pior os mal preparados recrutas argentinos diante de um pequeno grupo de tropas de elite enviado pelos britânicos às ilhas Falklands que incluía marines, paraquedistas e mercenários ghurkas. O fracasso fez a frustração popular se voltar contra o governo Galtieri e, ao contrário, deu ao governo de Margaret Thatcher estrondosa vitória eleitoral. Possivelmente essas recordações fizeram Kirchner desistir da estapafúrdia ideia de invadir as Falklands passando, então, a fabricar algo que contivesse também forte apelo nacionalista: a expropriação que só faltou ter o mote: “o petróleo é nosso”.
Enquanto nos Estados Unidos e na Europa, a expropriação da YPF foi duramente criticada, a presidente Dilma e o ministro de Minas e Energia Edison Lobão, seguindo a arenga do ex-presidente Lula da Silva, correram para acudir o governo argentino dizendo que o ato do país vizinho é uma questão de soberania. Esqueceram que romper tratados não é próprio da soberania, mas da selvageria, pois não é civilizado romper acordos internacionais.
O ministro Lobão, disse crer que a Petrobrás não será expropriada na Argentina. Já o foi, na província de Neuquén, em princípio de abril. Também esqueceu ou ignora que a presidente Kirchner tem mantidos congelados os preços dos combustíveis nos postos da Petrobrás, apesar da inflação, talvez, um detalhe menor porque o Brasil está fazendo o mesmo.
Como era de se esperar, na medida em que o governo argentino não tem condição de bancar os investimentos que a Repsol fazia, a presidente Kirchner enviou o ministro de Planejamento da Argentina, Julio de Vido, para conversar com nosso ministro de Minas e Energia. O primeiro propôs o aumento da participação da Petrobrás de 8% para 15% do mercado de produção, processamento de petróleo e distribuição. Lobão respondeu que fará de tudo para ajudar o país vizinho. Já vimos um filme parecido na Bolívia. São viejos tiempos que sempre voltam, aqui e em toda América Latina.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
“CACIQUE” LULA E SEU COMUNISTA
Maria Lucia Victor Barbosa
28/10/2011

Na emblemática foto publicada pelo O Estado de S. Paulo (25/10/2011), um Lula eufórico, de cocar azul, se dirige à presidente- figurante, também de cocar, que ri com expressão de indizível felicidade diante do “cacique”. Afinal, Lula é superstar, sua política é a egopolítica e o resto é coadjuvante no espetáculo do poder.
Em pleno terceiro mandato e em campanha desenfreada para voltar em 2014, Lula foi inaugurar uma ponte sobre o Rio Negro e na viagem até Manaus, onde a foto foi tirada, decretou o bota-fora de Orlando Silva do PCdoB, então, ministro do Esporte, a quem chamava de “meu comunista”.
Admirador dos piores déspotas mundiais Lula chegou a defender a permanência do ministro. Prontamente, Rousseff chamou o comunista crivado de denúncias de corrupção ao Palácio fazendo conhecer através da imprensa sua confiança no mesmo.
Semelhante comportamento foi dado aos cinco ministros que caíram, quatro por graves indícios de corrupção. Portanto, que se cuidem os ministros que continuam quando a presidente-figurante lhes hipotecar solidariedade.
Ressalve-se que apenas o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, foi defenestrado por Rousseff, o que lhe valeu a admiração popular e a alcunha de faxineira. Os demais, com exceção do ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, foram demitidos por pressão da imprensa que apresentou documentação, declarações entrevistas indicando corrupção e outros crimes cometidos nos ministérios da Casa Civil, Agricultura, Turismo, então chefiados respectivamente por Antonio Palocci, Wagner Rossi e Pedro Novais.
Em países civilizados a queda de tantos ministros por motivos nada edificantes no mínimo causaria perplexidade ou desconfiança da população com relação ao governo. No Brasil, quando o sexto ministro segue para o olho da rua a presidente-figurante provavelmente será louvada por sua postura ética com ajuda, é claro, do marketing e da predisposição das pessoas para serem enganadas.
O mais estranho nessa queda constante de ministros é que todos estiveram nas gestões de Lula e por ordem dele continuaram no governo da sucessora. Não é possível, portanto, que depois de tanto tempo Lula não soubesse das falcatruas dos companheiros. Seria ele omisso, negligente moralmente ou sócio de seus principais auxiliares?
Quanto a presidente Rousseff, cujo trabalho anterior na Casa Civil era o de coordenar o trabalho dos demais ministérios, como Lula devia estar ciente do que se passava. Desse modo, se aceitou continuar com tais ministros foi também omissa, conivente ou completamente submissa ao “cacique”. Compete, então, aos brasileiros perguntar: Quem governa o país? Estamos sendo submetidos a uma farsa eleitoral?
Nas gestões de Lula ministros que tiveram de abandonar poder e privilégios não o fizeram porque o país é sério, mas para que seus malfeitos não respingassem no presidente superstar. Isso parece continuar. Com a diferença de que agora se preserva não um presidente, mas, dois: Lula e Rousseff.
E se não fosse a imprensa, que os petistas sempre quiseram censurar e que dá azia em Lula, a poderosa esquerda, que veio com a pretensão de não mais sair, continuaria a gozar as delícias da burguesia e se locupletar cada vez mais através de práticas que fariam corar os mais selvagens capitalistas.
Orlando Silva, enredado no cipoal de corrupção das ONGs ligadas a seu partido, parentes e agregados, não tem do que se queixar ou lamuriar. Todos os ministros e demais autoridades que perderam os cargos logo encontraram outros, sem o glamour da política, mas muitíssimos bem remunerados. E nenhuma investigação contra eles prosperou, pois todas foram arquivadas no país da impunidade.
De todo modo, mais esse episódio degradante do governo petista e dos seus seguidores mostrou que o PCdoB, que mantém o feudo do esporte com Aldo Rebelo, hoje se destaca por uma avassaladora sede de enriquecimento pessoal custe o que custar, um fazer politiqueiro que percorre de alto a baixo o partido que se dizia ideológico. Ideologia que cultuada pela esquerda brasileira imprimiu o terror, a opressão, o atraso, o crime aonde foi implantada.
Degradam-se, assim, os partidos políticos, as instituições, a economia, a vida nacional. Indiferente o povo aplaude os governantes corruptos que lhe surrupiam bilhões, os impostos escorchantes, os demagogos e seus discursos enganosos.
Com cocares azuis o “cacique” Lula e sua obediente presidente morrem de rir. Será que continuarão rindo quando os benefícios trazidos pelo Plano Real, que acabou com a inflação, começarem a se esvair? O dragão da inflação está de volta e na medida em que o povo se der conta de que acabou o crédito fácil, o acesso desenfreado ao consumo, perceber que o salário não chega ao fim do mês e que nossas indústrias estão se deslocando para outros países levando daqui os empregos, não serão heroicos mil, dez mil, vinte cinco mil que sairão às ruas em passeata para protestar. Chegará a hora que mais gente irá gritar: “fora corruptos”.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

DE BESTIALIZADOS A CIDADÃOS
Maria Lucia Victor Barbosa
O chamamento pela Internet que culminou no movimento popular do sete de setembro, especialmente em Brasília, levou milhares de pessoas a protestar durante o desfile oficial. Foi um evento que não pode ser analisado superficialmente, mesmo porque, para entender o presente é preciso recuar até ao passado. Num pequeno artigo seria impossível historiar o que se passou no Brasil desde sua descoberta, como fiz em um dos meus livros, “América Latina – em busca do paraíso perdido”, mas, pelo menos, podemos recortar no tempo alguns acontecimentos históricos e políticos importantes:
A vinda da corte portuguesa, em 1808, e o modo como se realizou a independência em sete de setembro de 1822, trouxeram várias consequências. Em primeiro lugar a presença da família real fortaleceu a unidade política do colosso territorial, ao contrário do Império Espanhol que se fragmentou em várias nações entre 1810 e 1838. Segundo, apesar de alguns movimentos importantes, mas isolados, a independência foi obra do príncipe regente e de minorias políticas enquistadas nos bastidores do poder. Não houve, pois, o sentimento nacionalista que marcou os episódios libertadores das colônias espanholas, sentimento que no nosso caso foi substituído por meros interesses individualistas que nada tinham a ver com percepção de pátria ou ideal de bem comum.
Foram também a partir de 1808, que se instalaram no Brasil de uma vez por todas as características do velho Estado português, que em terra nova não perderia sua essência patrimonialista magistralmente explicada por Raymundo Faoro em sua obra, “Os donos do poder”: “Os reis portugueses governaram o reino como a própria casa, não distinguindo o tesouro pessoal do patrimônio público”.
Era um Estado também corrupto na medida em que para tudo se dependia dele, do seu excessivo quadro de funcionários, da morosidade típica da burocracia, correndo soltas as propinas para aligeirar licenças, fornecimentos, processos, despachos, etc. Nas entranhas do desajeitado e ineficiente Leviatã conduzido por D. João VI traficavam-se influências, negociava-se a coisa pública em proveito próprio. Imagino que os leitores devem estar notando que a realidade de hoje não difere muito do nosso já distante passado.
Acrescente-se que os fatos mais marcantes da nossa história não contaram com a participação popular. Por isso, a proclamação da Republica não sensibilizou a massa, nem sequer no Rio de Janeiro, quanto mais nas vastidões afora do país. José Murilo de Carvalho cita em seu livro, “Os bestializados”, Aristides Lobo, adepto incondicional da nova forma de governo e um dos mais desapontados. Segundo este, “o povo, que pelo ideário republicano deveria ter sido o protagonista dos acontecimentos, assistiu a tudo bestializado, sem compreender o que se passava, julgando ver talvez uma parada militar”.
Muita coisa foi mudando como não poderia deixar de ser. Vários movimentos aconteceram. Alguns, como as diretas já e o impeachment do ex-presidente Fernando Collor levaram o povo às ruas. Mas sempre houve lideranças partidárias, sindicais, apoios da Igreja e de estudantes que conduziram multidões. Em showmícios a massa aplaudia entusiasticamente tanto oradores políticos quanto artistas preferidos do grande público.
Na era Lula/PT em que a decadência partidária avança, os valores se extinguem, a corrupção sempre havida é exacerbada de modo impressionante juntamente com a impunidade dos “colarinhos brancos” e a propaganda transforma cidadãos em bestializados, aconteceram fatos que o domínio petista não deve ter digerido bem.
Um deles foi o sonoro não ao desarmamento da população, em plebiscito levado a cabo por ordem de Lula da Silva. Posteriormente, um movimento via internet ajudou a pressionar parlamentares para que a famigerada CPMF, que está prestes a ser ressuscitada pela presidente Rousseff, fosse extinta. Outros abaixo assinados como aquele a favor da “ficha limpa” ou centenas de artigos e de opiniões críticas ao governo que se entrecruzam em e-mails mostram que, ao contrário dos muitos satisfeitos, por enquanto, com sua situação financeira, uma minoria consciente das classes médias que lê jornais e revistas começa a perceber que a avassaladora corrupção que se espraia por todos os cantos do poder é danosa aos interesses da nação.
Surgiram, porém, criticas entre os próprios internautas. Muitos dizem que não basta escrever, seria preciso agir, ganhar as ruas, expressar publicamente a indignação.
A Internet ficou pulsando até aglutinar um movimento espontâneo que fez do virtual o real, materializando no sete de setembro em vários Estados e, principalmente, em Brasília, milhares de pessoas, sobretudo, jovens, que tiveram como foco o combate à corrupção. Pela primeira vez um movimento não teve líderes, foi consciente, apartidário, não expressava ideologia tanto de esquerda quanto de direita, não era individualizado, mas em defesa de um objetivo comum.
Digam os críticos desse inédito acontecimento que ele é efêmero e difuso, queiram alguns espertamente se apropriar dele, mas o fato é que brasileiros foram ao desfile de sete de setembro e assistiram a parada militar não como bestializados, mas como cidadãos. Tomara que esses compatriotas sejam o fermento de uma progressiva transformação rumo à consciência cívica que tanto nos falta.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O SUBMUNDO DO GOVERNO
Maria Lucia Victor Barbosa
01/09/2011

Em 1914, Robert de Jouvenel dá o título de “O quarto poder” a uma das partes de sua obra, La République des camarades. Ali ele registrou:
“Quando um parlamentar conhecido se abstém durante muito tempo de frequentar essa bolsa de confidências e difamações, sua pessoa poderá ser vista a perambular tristemente de grupo em grupo, à cata do jornalista que se disponha finalmente a vir solicitar confidências destinadas ao grande público”.
Jouvenel mostrou, assim, a força do “quarto poder”, ou seja, dos jornais do seu tempo. Ele não podia imaginar a influência que teriam mais tarde o rádio e a televisão sobre a massa.
O quarto poder continua a movimentar opiniões, mas, no momento, em nosso país, é de se duvidar que algum político busque jornalistas de certos veículos da grande imprensa, os raros que possuem independência suficiente para mostrar o submundo do governo. Destes jornais e revistas os políticos devem estar fugindo como diabo da cruz. É que o quarto poder anda derrubando ministros, mostrando com fatos e documentos no que se transformou o governo do PT e de seus aliados.
Logo a propaganda se apropriou das denúncias do quarto poder e atribuiu à presidente da República uma hipotética faxina, na verdade apenas desencadeada no Ministério dos Transportes, inclusive, com a queda do ministro Alfredo Nascimento. Antonio Palocci da Casa Civil, Nelson Jobim da Defesa, Wagner Rossi da Agricultura caíram de podres e para não macular a imagem da presidente, exatamente como acontecia no governo do blindado Lula da Silva.
Tornaram-se intocáveis os titulares que pertencem ao PT ou ao PMDB, como aqueles dos ministérios do Turismo, das Cidades, das Comunicações, da Casa Civil, das Relações Institucionais e quantos mais estejam na mira do quarto poder, como o dos Esportes. A presidente declarou que só mexe nessas pastas, em que pesem as denúncias sobre as mesmas, se os partidos pedirem, algo risível. Partidos não pedem para sair de cargos, mas para entrar em quantos cargos puderem.
Para contrapor à imprensa nacional logo foram espalhados na imprensa internacional elogios mil a presidente da República. Ela surge como corajosa, ética, guerreira contra a corrupção. E a revista Forbes a coloca como terceira mulher mais poderosa do mundo.
Nem uma palavra sobre o intocado submundo da corrupção reinante na república dos companheiros. Nada sobre o fato de que a terceira mulher mais poderosa do mundo reina, mas não governa, pois o comando continua sendo de Lula da Silva que indica ministros, reúne-se com os partidos políticos, faz inaugurações, visita países latino-americanos como se presidente ainda fosse, ensina à sua desajeitada criação política como agir de forma demagógica.
Na última edição da revista Veja, uma matéria sobre José Dirceu mostrou o quanto ele comanda autoridades recebendo seus pleitos, interage com aqueles aos quais denominou de “elites”, mas demoniza os “malditos e impiedosos ricos” que o sustentam como a um nababo e realizam com ele negócios extraordinários. Porém, a revista não contou a quem Dirceu obedece. Certamente a Lula da Silva, pois é de se duvidar que este conceda uma migalha sequer de seu poder a outrem.
A propalada faxina serviu, contudo, para despertar certo temor nos petistas. Recearam os companheiros que o governo de Lula da Silva fosse carimbado como corrupto. Algo extremamente óbvio, pois os ministros que caíram eram os mesmos do ex-presidente e por ele impostos a sua afilhada política. Será que os petistas temem que Lula da Silva apareça como fiador ou cúmplice das falcatruas? Que ele tenha oficializado a velha prática da corrupção que se tornou incomensurável?
Note-se que a própria Rousseff conviveu com o submundo do “reino” lulista e fez parte dele junto com sua fiel servidora, Erenice Guerra, alcunhada de Erê 6%. Converte-se, assim, a presidente na imagem viva da herança maldita de Lula da Silva, que em vez de legar afanou bilhões que poderiam ter sido aplicados em benefício do povo, e que foram parar no bolso dos larápios da república dos companheiros. Inclua-se aqui o Poder Legislativo, cujo último ato foi o de livrar Jaqueline Roriz do impeachment, aliás, prática corrente de autoproteção dos parlamentares.
Da pretensa faxina presidencial emerge também algo óbvio, que tenho repetido em outros artigos. Tudo isto acontece porque não existe oposição, exceto uma ou outra voz isolada. Foi, por exemplo, deprimente ver a foto de Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e outros próceres tucanos, praticamente aos pés da “terceira mulher mais poderosa do mundo”.
Sem oposição fraqueja a democracia e emerge a ditadura disfarçada do PT. Na impunidade onde a lei é substituída pela ideologia ou pelo interesse pessoal de quem julga viceja o submundo do governo. De tudo se conclui que somos atrasados demais para sermos civilizados, pois permitimos nossa desgraça, alheios aos que nos comandam.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
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